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Expresso

Jogos Olímpicos e incêndios, the same old story

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Os Jogos Olímpicos terminaram e o balanço é parecido com os outros anos: menos medalhas do que o desejado, os atletas queixam-se falta de apoios (alguns com razões para tal) e os do costume dizem que os atletas frustraram as nossas melhores expectativas. Com os incêndios o resultado é exatamente igual, todos os anos arde mais, todos os anos se fala da falta de aviões, da ausência das forças armadas no combate, entre vários outros mitos, e isso serve para disfarçar a ausência de uma política onde a prevenção e o ordenamento sejam o pilar fundamental. Mas isso, quer da falta de política desportiva quer da falta de política de prevenção já todos sabemos…há décadas.

Tanto a imprensa, tantos os atletas ou até mesmo todos nós portugueses, temos uma quota de responsabilidade, nesta habitual pseudo frustração da falta de medalhas que, lamentavelmente, parece diminuir o quão bom que é para Portugal chegar a uma final, ficar nos dez melhores do mundo, etc, etc. de facto, na verdade, a primeira pergunta que fazemos, e a única que parece interessar, diz respeito à conquista de medalhas. Façamos o esforço de ir ler os jornais antes da partida e verificamos que jornalistas, políticos, algum público em geral e até alguns atletas insistem sempre na “conversa” medalhas. Os nossos heróis, os nossos atletas, talvez sejam até os menos culpados da nossa ambição coletiva em querer “trazer” medalhas.

Portugal continua a ter uma cultura desportiva embrionária, que não nos permite ter mais praticantes e com isso maior competitividade entre eles. O desporto escolar fica ainda muito aquém do exigido e o universitário é claramente insuficiente. Em nada ajudam medidas como da redução da carga da disciplina de educação física e o não contar para a média que foi alterado pelo governo anterior. Ainda assim, não nos devemos esquecer dos progressos que têm sido alcançados nesta matéria e seria injusto não reconhecermos que hoje as condições em termos de financiamento e infraestruturas são bem melhores do que há 20 anos. Portugal tem hoje centros de alto rendimento que não possuía há 10 anos, o programa olímpico tem mais atletas, mais presenças em competições internacionais, mais oportunidades de ter sucesso. Verdadeiros milagres, face à escassez de condições, aconteceram no tempo de Carlos Lopes, Rosa Mota ou Fernanda Ribeiro.

Mas a verdade é que, apesar de algumas desilusões face às expectativas iniciais, o saldo dos Jogos Olímpicos acaba por ser notável para Portugal. Não vi nenhum atleta português a não dar o máximo, a não treinar afincadamente para os jogos, há muito que não via tantos portugueses a disputar finais em modalidades tão diferentes como o ténis de mesa, o taekwondo, o atletismo, a canoagem, a equitação ou o judo, e isso dever ser motivo de orgulho para todos nós. Os que falharam possíveis medalhas não as alcançaram por centésimos de segundo, não venceram por escassos centímetros. Temos o direito de os criticar por isso? Claro que não, seria um desplante.

Mais triste é ver a forma como não aprendemos com os resultados, tanto nos jogos como nos incêndios. Só podemos ter maior sucesso nos Jogos Olímpicos se tivermos mais praticantes, uma estratégia de longo prazo que não tenha como objetivo único ganhar medalhas, mas sim desenvolver as modalidades e a sua competitividade. Se a estratégia for apenas ganhar medalhas o sucesso pode ter pés de barro, para termos um possível medalhado, precisamos de ter pelo menos três ou quatro atletas com o mesmo nível. Veja-se como é notável o exemplo da canoagem, do ténis-de-mesa ou do atletismo onde Portugal tem vários atletas que podem disputar lugares em finais olímpicas. Isso não acontece por acaso.

Medalha de ouro é ter o Nelson Évora a disputar a final do triplo salto depois de tantas lesões. Medalha de ouro é ter três atletas portugueses na final de triplo-salto feminino e masculino. Medalha de ouro é ter atletas portugueses a disputar quatro finais olímpicas em canoagem. Medalha de ouro merece o esforço do Jorge Fonseca no judo ou o 6º lugar da Ana Cabecinha na marcha. Medalha de ouro é ter tantos atletas a receber diplomas olímpicos. Medalha de ouro merecem todos os treinadores que, nem sempre devidamente reconhecidos, dedicam o seu tempo disponível a ajudar estes atletas. Medalha de ouro merecem as suas famílias, amigos e clubes que os ajudam. Medalha de ouro merece o Comité Olímpico por ter uma “família” tão preparada e motivada. Medalha de ouro merece também a Marinha Portuguesa pela notável iniciativa de fazer da “Sagres” a casa de Portugal e da nossa equipa olímpica.

Triste é não aprender com os erros e lamentável é ter um ex Presidente do COP, responsável pelo olimpismo nos últimos 30 anos, a dizer que esta foi a pior participação de sempre.

Todos sabemos que no desporto, como na floresta e na vida, o sucesso não se atinge sem esforço, sem dedicação e com um trabalho meramente sazonal. Para ganhar no verão, para além da estratégia e continuidade são necessários muitos invernos, outonos e primaveras. Estamos sempre a tempo de corrigir erros e preparar o futuro.

O meu muito obrigado a todos os nossos atletas, os que foram aos “jogos” mas também a todos aqueles que com eles por cá competiram.