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Expresso

As vacas não voaram e quem tem sol é que paga

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A silly season começou em grande estilo. Se os sórdidos detalhes do “acampamento de verão” do Bloco de Esquerda nos deram uma clara amostra da visão que aquele partido tem da nossa forma de vida, o clímax chegou com o aumento do IMI para casas “solarengas” ou com vista para o mar.

Na verdade, não percebo qual a razão para tanto espanto ou surpresa, afinal estamos a falar de um governo que acredita que as vacas podem afinal voar, que acredita que é possível gastar ainda mais e mesmo assim poupar mais do que no passado.

Se com estas pessoas no governo até as “vacas podem voar” porque não pode o sol pagar imposto?

Será que o IMI vai ser mais elevado para aqueles que tiverem varanda? E os que construíram a bela da marquise, pagam menos porque têm menos sol na varanda? E se tivermos um prédio à frente que nos tapa o sol a partir das 4 da tarde, temos um crédito fiscal? E se colocar uma nova árvore em frente à minha janela solarenga, isso poderá ser considerado planeamento fiscal agressivo? Já para não falar nos alentejanos e algarvios que apanham sol todo o ano, vão ser prejudicados no IMI? Ou será que vão ter que colocar um termostato em cada telhado para medir a temperatura e indicar o valor a cobrar? Enfim…

Fico com a sensação que se trata de mais uma ideia “fraturante” para distrair os portugueses de factos bem mais graves como é o exemplo a subida da dívida pública que ainda ontem ficamos a saber que cresceu mais 8,5 mil milhões de euros (http://www.jornaldenegocios.pt/economia/financas_publicas/detalhe/divida_publica_aumenta_mais_de_85_mil_milhoes_ate_junho.html)

Mas fiquei ainda mais curioso sobre esta medida do IMI quando li a entrevista, bastante lúcida até, do porta-voz do PS João Galamba, que revela que a estratégia do governo da geringonça é mesmo falhar as metas e socorrer-se do falhanço dos restantes países europeus em risco, quase todos socialistas com destaque para Itália e França, para escapar a possíveis “sanções”. O problema é que a maior sanção não é sobre o governo, mas sim sobre os portugueses, porque esta estratégia do Governo só não prejudicará os portugueses se as “vacas voarem mesmo”. E, pelos vistos, João Galamba já percebeu que nem a geringonça consegue fazer as vacas voar. Neste momento, acredito que só seja já possível acreditar em tal fenómeno no meio da euforia do acampamento do Bloco de Esquerda.

Mas esta silly season não estaria completa se não tivesse um episódio com o “sorridente” Ministro das Finanças, Mário Centeno, que foi ouvido na Comissão de Inquérito da CDG e onde teve um desempenho, no mínimo, embaraçoso. Acabado de chegar de férias (o que diriam de um Ministro das Finanças de um Governo do PSD que fosse de férias num quadro de possíveis sanções ou a meio de uma crise como a da CGD? Só prova que as sanções não passaram de teatro como aqui escrevi (http://expresso.sapo.pt/blogues/blogue_sem_cerimonia/2016-07-26-O-teatro-das-sancoes) ou que o Ministro está mesmo de saída deste governo), Mário Centeno teve aquilo a que se chama uma prestação pouco prestável, que só confirmou o desastre que tem sido a gestão do processo CGD por parte do Governo. Centeno começou por criticar o desvio do plano de negócios da CGD, de 3 mil milhões de euros, mas acabou a confessar que o erro dessa “previsão” tinha como base uma “previsão” errada feita pelo Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal então liderado precisamente pelo Professor Mário Centeno. Hesitou muito nessa resposta, demonstrando total embaraço pelo ricochete que fazia a sua acusação. De seguida confessou também que não sabe o valor certo da recapitalização, mas que atual Administração da CGD pedia apenas 2 mil milhões, ou seja, menos 3.5 mil milhões do que os números que têm vindo a público (4,5 bi) por “fontes do Governo”. Acredito que são as mesmas que deram a “noticia” do BANIF à TVI e a Sérgio Figueiredo. A terminar em beleza essa audição, Centeno confirmou que uma consultora e um escritório de advogados estariam a assessorar a futura administração, mas garantiu que não era o Estado que lhes estava a pagar, mas que também não sabia quem seria. Mais um caso “Diogo Lacerda Machado” que tem acesso a informação confidencial e trabalha de borla?

A terminar, não podia deixar de fazer três comentários aos 19 nomes da nova Administração da CGD. Em primeiro lugar, a qualidade do novo Presidente não está em causa e dá todas as garantias de competência, o problema é mesmo a falta de transparência em todo o processo de preparação do plano de restruturação da CGD que António Domingues parece liderar sem quaisquer restrições ou obrigações de sigilo. Em segundo lugar, para uma “gerigonça” tão defensora da igualdade e tão feminista, é caricato incluir apenas uma mulher, que até é militante do PSD, na nova Administração da CGD. Por fim, e em nome da transparência, era útil ter conhecimento público dos contratos e interesses existentes, exposição e riscos, da CGD às empresas cujos futuros administradores do banco público estão ligados, executivos e não executivos, quer como administradores quer como investidores.

Boas férias!