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Expresso

Opinião sem cerimónia

António Costa e o regresso ao abismo de Sócrates

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Quantos mais meses passam sobre a ação deste Governo mais fico com a sensação que, apesar da euforia, o país caminha a passos largos para uma nova crise. O Governo é mestre em manipular números, realidades e sensações e isso é perigoso. Muitos portugueses estão contentes porque lhes foi reposto mais rapidamente o rendimento mas assusta-me bastante a reação popular quando todo o país perceber que está a ser alvo de uma manobra altamente manipuladora protagonizada por António Costa. Penso que nem no tempo de José Sócrates se foi tão longe na manipulação de realidades.

Na semana passada, António Costa afirmou que o Tratado Orçamental era um bloqueio ao crescimento económico. Pacto esse que o atual primeiro-ministro conhecia, ou tinha obrigação de conhecer porque já percebemos que sabe os dossiers pela rama, quando nas eleições disse aos portugueses que iria colocar a economia a crescer 2,4% graças ao consumo interno e ao investimento. Com este Pacto Orçamental, apesar dos bloqueios que António Costa hoje afirma, o anterior governo deixou a economia a crescer 1,5%. Isto são factos.

Para António Costa tudo que exija algum trabalho e esforço torna-se um bloqueio ou até uma ingerência externa. Não difere muito nem de Catarina nem de Jerónimo.

Quer o ministro das Finanças quer o primeiro-ministro alimentam a ilusão, manipulam os portugueses e usam a estratégia do inimigo externo para se desresponsabilizar. Mas mais grave é a imprudência destas declarações e o risco de interpretação que elas encaram. O que António Costa disse sobre o Pacto Orçamental é o que o BE defende. O BE defende um referendo tal como o Reino Unido o fez. É perigoso, irresponsável e lamentável que um PM socialista opte pela linha bloquista e renegue às origens socialistas. Mas, pelos vistos, até o Bloco de Esquerda já percebeu que o Excel de Centeno estava mesmo manipulado e agora já nem as "vacas a voar" parecem ser suficientes para cumprir os objetivos de crescimento, agora só mesmo com "petróleo no Beato" como afirmou ontem Catarina Martins.

A "gestão permanente de crise" é o ambiente confortável do nosso primeiro-ministro e do seu governo, lançando lama mesquinha sobre o passado, ignorando olimpicamente o estado em que deixaram o país em 2011, tentando rescrever a história sem decoro ou qualquer pudor, e apresentando-se como "Éder" dos problemas dos portugueses.

Se a irresponsabilidade já era preocupante, a incompetência é assustadora. Na carta que ontem vejo a público ficamos a perceber a pobreza da contra argumentação do Governo português perante as sanções, apenas porque António Costa se recusa a usar a argumentação técnica adequada porque essa obriga a reconhecer como extremamente positiva a herança do governo PSD/CDS. O atual Governo prefere o argumento parolo e egoísta, para não lhe chamar chantagista, de que pode estar em causa o "amor" dos portugueses pela Europa.

A gestão ao dia que têm feito dos mais diversos processos vai-se revelando desastrosa e com consequências muito graves para a vida das pessoas, não hoje mas nos próximos tempos. Ontem foram as sanções, hoje é CGD, amanhã logo se vê.

Veja-se já a dívida pública a crescer o dobro face ao crescimento da economia portuguesa, precisamente o contrário do prometido por este governo e dos resultados do governo anterior. O desemprego votou a aumentar, o emprego deixou de crescer e balança comercial voltou a ficar desequilibrada. Tudo isto tem consequências, tudo isto resulta da falta de estratégia, de falta de seriedade e responsabilidade política.

O Governo dirá que é a conjuntura externa, a crise no Brasil e em Angola. Mas qual a surpresa? Não era tudo previsível? Porque quiseram arriscar? Mas se a Europa está a crescer e é o nosso principal parceiro económico, qual a desculpa? Mas se antes com tanta austeridade o país até crescia, o desemprego baixava e até as exportações aumentavam, qual é a desculpa?

Penso que o forma como o processo da CGD tem sido gerido é um bom exemplo do estilo deste governo, da estratégia que assenta num conjunto de mentiras e meias verdades, uma gestão à vista de um processo que se queria rápido, transparente e eficaz. Não, Mário Centeno e António Costa acharam que com a re-capitalização da CGD arranjavam um problema ao anterior governo mas pelos vistos o tiro saiu-lhes pela culatra. A realidade não é afinal a que anunciaram, a gestão anterior foi boa, o BCE e a Comissão Europeia rejeitam o plano de Centeno, rejeitam o exagero de membros do Conselho de Administração, parecem rejeitar os montantes públicos a investir e discordam da estratégia. O PSD desconfia porque o processo não tem sido transparente e porque considera que menos de 2 mil milhões de euros é suficiente face às novas regras do BCE, enquanto que o governo, Bloco de Esquerda e PCP preferem gastar 5 mil milhões. Afinal quem é aqui o inimigo externo dos contribuintes?

E as sanções que cada vez parecem mais desejadas por António Costa para justificar o desacerto da sua estratégia? É útil recordar que foi o atual governo que em dezembro de 2015 anunciou um conjunto de medidas que iriam permitir manter o défice abaixo dos 3% (ver notícia de dezembro de 2015). Tal como afirmou António Vitorino na Sic Notícias, e eu próprio o afirmei dias antes na audição da secretária de Estado dos Assuntos Europeus no Parlamento, o que está em causa não é o défice de 2015, mas sim a dinâmica da trajetória do défice. É isso que ao longo dos últimos anos tem sido decisivo para eventual sanções. Se António Costa não usa esse argumento é porque é politicamente incómodo para o discurso do PS, PCP e BE dos últimos anos.

António Costa está a expor o país a dificuldades que não existiam, que tinham sido superadas, apenas porque isso serve a sua agenda pessoal, a sobrevivência política do BE e PCP que embarcam nesta aventura, trocando o interesse nacional pelo interesse táctico-político do Partido Socialista e do seu líder, o primeiro-ministro de Portugal.