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Opinião sem cerimónia

O sonho português nos EUA. Obrigado campeões

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Quando há cerca de um mês tive um convite para ser orador numa conferência que começa hoje em Washington, percebi que teria de viajar ou no dia da final ou na véspera. Marquei por isso o voo em função do calendário do Euro, ainda que na altura, a esperança de ver a nossa selecção a disputar a Taça não fosse muita. É honesto reconhecer que só praticamente a equipa de Fernando Santos acreditou desde o início no sonho da vitória e teve o mérito de ir conquistando jogo a jogo mais e mais portugueses e de ir provando que os sonhos se tornam realidade com esforço, trabalho e perseverança, apesar das dificuldades e contrariedades que vão aparecendo pelo caminho.

Tive o privilégio de assistir a esta grande vitória junto da comunidade portuguesa que vive em Newark nos Estados Unidos da América e não podia ter escolhido melhor local. Foi um dia que ficará para sempre na minha memória.

Na Casa do Ribatejo em Newark, associação local construída com o empenho de portugueses de Santarém, do Cartaxo (Manique do Intendente e Maçussa), da Azambuja, de Torres Novas, de Rio Maior e até de Mação, senti-me em casa. Respirava-se emoção, saudade, orgulho. Estive lado a lado com portugueses que choraram com a lesão do nosso capitão, senti com eles a angústia a aumentar com o passar dos minutos, cada um de nós fazia força para compensar a ausência do Cristiano e todos ficámos igualmente emocionados com o golo do Éder. Mal soou o apito final, todos nos arrepiámos, meio incrédulos. Éramos todos campeões da Europa: eu, a senhora da CGD, o homem dos transportes, o bate-chapas, a gestora de fortunas, a "chefe" do rancho local, a diligente senhora do Consulado português, o simpático professor do "Camões". Todos campeões. O Mayor local juntou-se à festa, a polícia de Newark saudou os nossos emigrantes, e muitas outras comunidades juntaram-se à celebração portuguesa.

As lágrimas de felicidade e os sorrisos espontâneos de orgulho genuíno daqueles portugueses com sotaque "americano" que desfilaram nas ruas de Newark, que vestiram a camisola da nossa selecção, que efusivamente cantaram o nosso hino nas ruas dos EUA, são as mesmas lágrimas e sorrisos de portugueses que anteriormente perseguiram um sonho: que emigraram, que arriscaram, que tiveram ou não sucesso mas que sabem bem o que é a dificuldade, o empenho e o espírito de sacrifício.

Se há título que deve ser partilhado com as comunidades portuguesas no estrangeiro é este, obtido no país mais emblemático da emigração portuguesa, contra a equipa local, com uma equipa recheada de jogadores que ou são filhos de emigrantes, ou nascidos em países lusófonos.

Esta foi uma vitória que vai ficar para a História porque foi uma vitória da lusofonia, da língua portuguesa, das nossas comunidades.

O que seria da nossa seleção sem os Guineenses Éder e Danilo ou sem o Cabo verdiano Nani? Sem o Renato e as suas raízes de São Tomé e Cabo Verde? Sem William e João Mário que têm pais angolanos? O que seria de nós sem os emigrantes Raphael, Cedric, Adrien e Antony? O que seria de nós sem o brasuca Pepe ou sem o cigano Quaresma? Sim, tal como sem o Patrício de Marrazes, sem o André de Grijó, sem o Moutinho de Portimão, sem o Rafa de Vila Franca, sem o Eliseu dos Açores ou sem o Ronaldo da Madeira ? Ou o que seria da França sem o "nosso" Griezman?

Somos todos Portugal e temos a prova provada de que juntos somos muito mais fortes.

Em Newark conheci polícias de apelido português, Italiano, francês, mexicano, espanhol, entre outros. Vi muçulmanos, ortodoxos e católicos e festejar a vitória de Portugal. Conheci casais de portugueses e norte-americanos, portugueses e espanhóis, de mexicanos e chineses. Isto significa que é possível, que o problema não é a religião, a cor, a raça ou a etnia. É sobretudo uma questão de respeito, de tolerância e de educação. E é também uma questão de adequação de políticas às necessidades reais dos cidadãos.

Todo este mix fez-me reflectir sobre as migrações e a sua integração.

Num momento em que a Europa atravessa as dificuldades que todos conhecemos foi incrível perceber o nível de integração destas comunidades e o nível de participação cívica dos migrantes em determinadas cidades dos EUA. Talvez não fosse despropositado e até fosse útil a União Europeia olhar para os Estados Unidos e aprender com a experiência deles a receita para o sucesso do “melting pot”. A solução pode passar por aí.