Siga-nos

Perfil

Expresso

Opinião sem cerimónia

Pós-Brexit e os abutres do costume

  • 333

Após semanas consecutivas de especulação e de previsões catastróficas caso o Leave saísse vitorioso no referendo do Reino Unido, na quinta-feira passada a União Europeia adormeceu mais relaxada. Afinal, os primeiros resultados da noite eleitoral indicavam que, apesar de tudo, o Remain iria vencer. Mas o que mais se temia aconteceu, o BREXIT venceu o referendo britânico e todos os que tinham adormecido com sonhos cor-de-rosa, logo que despertaram depressa se viram imersos num pesadelo real. Os próximos tempos são portanto decisivos, quer para a estabilidade da União Europeia, quer para o futuro próximo dos britânicos.

Se por um lado pode ser útil esclarecer tudo o mais rapidamente possível e manter os britânicos na porta de acesso à UE, por outro isso pode ter um efeito de chamamento para que mais Estados-Membros pensem realmente em seguir o exemplo do Reino Unido. Isto porque, sendo possível usufruir das vantagens da União sem ter as obrigações e responsabilidades de ser Estado-Membro, claramente mais países se sentiriam tentados a seguir o mesmo caminho. O equilíbrio que se conseguir encontrar, entre as duas faces desta moeda, será, pois, a chave do sucesso do futuro da UE.

Para ultrapassar esta crise, a União Europeia não precisa de se refundar, mas precisa urgentemente de se renovar, de renovar as políticas e a forma de atuar dos políticos e instituições. Por um lado, é urgente que os líderes nacionais mudem de atitude perante a UE, que deixem quer de “Bruxelizar” o que é menos popular das suas decisões, quer de “nacionalizar” o que é mais agradável nas oportunidades criadas pela União Europeia. As decisões do Conselho são decisões dos Estados-Membros, mas nem sempre isso é evidente.

Por outro lado, União Europeia e os seus Estados Membros precisam de políticas mais eficazes e que digam mais respeito às pessoas, em matéria de criação de emprego, de proteção do consumidor e de combate às desigualdades. São precisas medidas mais diretas, com eficácia mais verificável e que espelhe melhor os valores da solidariedade europeia que, ainda que na minha opinião esteja quase sempre lá, raramente é visível aos olhos dos cidadãos.

Numa altura de maior fragilidade do projeto europeu, o oportunismo político de Nigel Farage, Boris Johnson e até mesmo do David Cameron de há cinco anos, é agora seguido por políticos como Marine Le Pen ou Catarina Martins. A primeira medida que a “dona” da Geringonça apresenta por cá é precisamente um referendo à participação de Portugal na UE. Confesso que, embora não tenha ficado surpreendido, essa declaração fez-me lembrar: um abutre a devorar um animal recém-ferido; e aqueles especuladores que Catarina Martins acusava de aproveitarem da dívida de países em bancarrota.

Quanto à legitimidade democrática, a participação de Portugal não pode ser colocada em causa pela não existência de um referendo.

Se concordo que no passado teria sido oportuna a realização de uma consulta popular, não é menos verdade que os programas eleitorais de todos os partidos que venceram eleições em Portugal, e que provavelmente recolheram 70% dos votos dos eleitores em todas as eleições, defendiam a participação de Portugal na UE. Maior legitimidade do que essa seria difícil.

Além do mais, as situações dois países não são de todo comparáveis. O Reino Unido, apesar de todo o seu peso económico e importância estratégica, foi sempre a “noiva mais hesitante” do projeto europeu. Se é verdade que sempre partilharam, sem hesitações, os valores europeus da democracia, da liberdade, da justiça e também de algumas das principais políticas como o

mercado interno, também não é menos verdade que sempre desconfiaram da partilha da sua soberania com outros países ou organizações internacionais. Não deixa de ser curioso que o primeiro Estado-Membro a aprovar um referendo para a sua saída da UE, após a criação do artigo 50 no Tratado da União Europeia, seja precisamente aquele que tinha o estatuto mais privilegiado, com mais optouts, com mais exceções à aplicação das regras europeias.

Os britânicos, sobretudo os ingleses, sempre demonstraram alguma hesitação em participar plenamente no projeto europeu e os seus principais líderes políticos nada fizeram para evitar este tipo de eurocepticismo britânico, nem mesmo os pró-europeus conseguiram desmontar as mentiras de gente como Nigel Farage (forçado pelo Parlamento Europeu a devolver dinheiro que usou ilegalmente). Não deixa, pois, de ser exemplo da pouca seriedade do debate observar que tendo passado poucos dias sobre o Brexit, sejam já várias as promessas dos defensores do Leave que se revelam falsas ou impossíveis de colocar em prática. A primeira, e talvez a mais chocante, foi a ideia de alocar o contributo mensal do Reino Unido para a UE, cerca de 360 milhões de libras, ao serviço nacional de saúde britânico.

A União Europeia não pode continuar a deixar sem resposta mentiras que a visam diretamente e a prejudicam aos olhos dos cidadãos europeus sob pena de essas mentiras, à custa de tanto serem repetidas e de não terem desmentido, serem tidas como verdadeiras e diabolizadas pelos abutres do costume.

A Europa precisa de se concentrar no fundamental, de ter mais alma e mais sentimento porque a União Europeia só faz sentido se for para ser vivida em pleno pelos cidadãos europeus.