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Expresso

Fracos políticos ameaçam forte Europa

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Como já por diversas vezes aqui referi, a duplicidade de discurso de muitos líderes dos países europeus tem sido uma das principais ameaças à popularidade e credibilidade do projeto europeu. Felizmente, em Portugal isso não tem sido uma prática comum, nem com Mário Soares, nem Cavaco Silva, nem António Guterres, muito menos com Durão Barroso, nem com Santana Lopes, Sócrates foi um fervoroso europeísta e Passos Coelho também. Até que chegou António Costa e que uma nova geração de extrema esquerda tomou conta do Partido Socialista. Não estou a falar apenas do Bloco ou do PCP, estou a falar do discurso antieuropeu de muitos dirigentes do atual Partido Socialista que fazem da Europa bode expiatório da sua incapacidade em reconhecer a realidade e as regras que os seus camaradas aprovaram.

Mas se os atuais dirigentes olham para a Europa com desdém, são mais entusiastas de modelos revolucionários como o Podemos ou o Syrisa, a revolução bolivariana na Venezuela, seguidores de Dilma e do PT, por respeitável convicção, há outros, mais antigos, que esquecem rapidamente a sua responsabilidade no atual projeto europeu. Lembram-se do “porreiro pá” na assinatura do Tratado de Lisboa? Sim, isso mesmo.

Pedro Silva Pereira, o então braço direito de José Sócrates, e atual Eurodeputado do PS, surge agora como redator da Moção de António Costa ao conclave socialista do próximo fim de semana. E qual um dos principais tópicos? A Europa e todos os seus defeitos. Ora, era aqui que eu queria chegar. Pedro Silva Pereira foi o principal Ministro de ambos os governos de José Sócrates e Secretário de Estado com Guterres, governos que, segundo os próprios, tiveram então papéis decisivos nas negociações europeias, aprovaram Tratados, reformas várias, centenas de regulamentos e de diretivas. Pelo menos era isso que “vendiam” cá por Portugal. Pois bem, então se então eram tão decisivos na construção do projeto europeu como é que agora vêm responsabilizar os outros, em particular a direita conservadora europeia, pelos fracassos europeus? Sem fazer qualquer mea culpa e sem assumir qualquer responsabilidade?

É caso para perguntar a Pedro Silva Pereira: onde estava entre 2005 e 2011?

Eu bem sei que lembrar o passado é coisa que não agrada habitualmente à maioria dos governantes socialistas, mas haja decoro. Também não negociaram o memorando da troika, não levaram o país à bancarrota, nem negociaram as regras europeias que agora tanto criticam? Pois, já nos vamos habituando.

Como se poderá compreender neste artigo da jornalista do Público São José Almeida quase todos os atuais dirigentes socialistas são altamente críticos do projeto europeu. Diariamente responsabilizam a UE pela bancarrota de 2011, desculpabilizando qualquer culpa da anterior gestão socialista. Ao ouvi-los, ficamos convencidos que as culpas das dificuldades portuguesas se devem exclusivamente à Europa e a Passos Coelho.

Para estes, a Europa é hoje um entrave ao crescimento e um buraco na própria democracia.

Mas Silva Pereira lembra no Público que “a única rutura que há no PS em relação à Europa "é com a atitude subserviente do Governo nos últimos quatro anos". Ora, não era o “seu” Primeiro-Ministro que foi várias vezes a Berlim pedir a “bênção” para os seus sucessivos PEC´s que depois não cumpria? Sabe, também como todos os outros, que o voto da Alemanha no Conselho é fundamental para fazer passar as pretensões portuguesas, ignorar este facto, sobretudo por parte de um ex governante com tais responsabilidades, é demagogia pura e dura.

Mas no PS ainda há alguns Europeístas convictos, críticos dos defeitos da UE, que não oportunistas do discurso fácil, falo de dirigentes como Eurico Brilhante Dias, Sérgio Sousa Pinto, Vitalino Canas ou Marcos Perestrelo que considera que a “Europa não é uma ameaça para Portugal, é uma oportunidade". O atual Presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros, Sousa Pinto, é bastante claro ao advertir que “o PS é um partido de Governo pelo que tem "de encontrar um caminho de governação que esteja de acordo com a realidade na UE”. Ou seja, não basta criticar ou ignorar as regras existentes. Com muita coragem, Sérgio Sousa Pinto lembra no Público que “é típico da demagogia da extrema-esquerda defender que podemos mudar a UE” dando com exemplo "os gregos que avaliaram mal a realidade e a correlação de forças" e termina dizendo que "o PS não pode pôr em causa o interesse do país em nome de uma abstração".

É precisamente numa abstração que vive este governo, o governo das vacas que voam, o governo do irrealismo que a cada dia que passa vê as suas promessas e previsões derrotadas pela realidade das vacas que são simplesmente ruminantes.