Siga-nos

Perfil

Expresso

O problema é que este PS está convencido que o Bloco tem razão

  • 333

As últimas semanas têm servido, infelizmente, para confirmar quase todas as críticas que os economistas independentes, bem como o PSD e o CDS, fizeram sobre a estratégia de política orçamental do PS, BE e PCP.

Os partidos que achavam que o crescimento da economia e a criação de emprego se decreta a partir de São Bento estão hoje no poder e os primeiros sinais da economia não são nada bons. O país já reduziu o seu ritmo de crescimento, o desemprego voltou a aumentar e o investimento privado parece colapsar. O que é mais preocupante é a falta de capacidade, ou de responsabilidade, para reconhecerem que o rumo está errado.

Os três partidos que sustentam este governo estão mais empenhados em provar que conseguem trabalhar juntos do que em resolver os problemas do país. É verdade que se têm conseguido entender, mais do que imaginávamos, à custa de muitos sapos engolidos, mas sobretudo à custa de muita incoerência face a posições tomadas anteriormente.

Bloco e PCP são hoje dois partidos, não digo domesticados, mas silenciados que, de vez em quando, colocam a cabeça de fora para manter a sua imagem/estatuto de 'irreverência'.

O PS de hoje é muito diferente, é um partido que se acantonou na extrema esquerda, deixou de existir ao centro e tem uma percentagem muito elevada de responsáveis políticos que se sentiriam, ou se sentariam, confortáveis nas bancadas do Bloco de Esquerda. O problema para o equilíbrio do sistema político é que este não é um casamento de conveniência, este PS está convicto que o Bloco de Esquerda tem razão e o pensamento correto sobre a estratégia para o país.

É por isso que acredito que o PS de António Costa não se coligou com o Bloco por necessidade, mas muito por convicção, sendo o Partido Socialista a verdadeira barriga de aluguer para as ideias do BE. Atrevo-me a dizer que se o ISCTE serviu de think tank aos governos de José Sócrates, o Bloco, ou melhor, o Centro Estudos Sociais de Coimbra liderado por Boaventura Sousa Santos, é o verdadeiro think tank de António Costa.

Isto é muito preocupante, não para o centro nem para a direita, mas sobretudo para Portugal. Não foram nada bem-sucedidas as aventuras de países que seguiram doutrinas deste género, veja-se o caso Brasil muito inspirado pelo génio do Dr. Boaventura mas sobretudo o exemplo da Venezuela, cuja revolução chavista teve por base o 'manual' da congénere espanhola do CES, a Fundação CEPS, então liderada pelos fundadores do Podemos, Iglésias e Monedero.

António Costa prepara-se para repetir o erro capital de José Sócrates: ao não reconhecer o equívoco, continua a empurrar com a barriga para a frente à procura da salvação, não do país, mas da sua estratégia. Até agora, tem tido a arte e o engenho, mas também a sorte que o referendo britânico e as eleições espanholas lhe deram. Mas mais cedo ou mais tarde, vai mesmo correr mal.

Acredito que a estratégia de António Costa possa ser ainda mais arriscada, ao deixar as medidas mais difíceis para os últimos anos do atual mandato, o PM pode querer antecipar eleições para, no auge do populismo, se livrar do PCP ou quiçá do PCP e do BE. A polémica em torno das 35 horas poderia ter precipitado esse alibi, mas, pelos vistos, parece que o nosso Presidente da República lhes poderá dar o maior presente político da carreira, falo do veto às 35 horas de trabalho na função pública. Se tal acontecer, Costa resolve uma parte do problema do défice e livra-se da fama de não cumprir a promessa feita aos seus parceiros.

Mas neste governo há algumas exceções que aqui quero destacar e que são manifestamente positivas, oxalá toda a “geringonça” fosse assim. Falo do trabalho da Ministra da Presidência no SIMPLEX, Maria Leitão Marques que, apesar de não ter a hombridade de reconhecer as reformas feitas pelo anterior governo na administração pública e na modernização do Estado, volta a apresentar um conjunto significativo de reformas que, se algumas estavam já forja, outras eram há muito esperadas pelos cidadãos. Na mesma linha, mas valorizando a boa herança que encontrou, também o Secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, contrariando toda a narrativa da esquerda ao longo dos últimos quatro anos, assume o empreendedorismo, o autoemprego, e as startups como caminhos essenciais para criação de riqueza e de emprego.

Quando o país precisa de estabilidade nas políticas e consensos nas reformas, lamentavelmente, os dois exemplos que atrás referi são precisamente as exceções que confirmam a regra de uma coligação que menospreza os sacrifícios que os portugueses fizeram ao longo dos últimos quatro anos, retomando diariamente a receita que nos levou à bancarrota em 2011.