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Dia da Europa e do Fernando de Sousa

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O projeto europeu enfrenta um dos períodos de maior dificuldade da sua História. Ontem, 9 de maio, celebrámos mais um dia da Europa. Comemorar este dia é recordar as raízes do projeto europeu, é "regar" os valores europeus, aqueles que nos distinguem dos outros, que aumentam o respeito externo por nós e que fazem da Europa uma espécie de novo "american dream" onde há mais qualidade de vida, mais justiça social, mais respeito pelos direitos humanos e mais igualdade de oportunidades.

Recordar os valores dos pais fundadores é valorizar o que conseguimos, é reconhecer o caminho que traçámos juntos e festejar o facto de termos tornado realidade o sonho europeu. Mas honrar esses valores é também ter a humildade de reconhecer as dificuldades, compreender os problemas e fazer as reformas que a Europa necessita.

Os tempos não são de festa, antes pelo contrário. A Europa enfrenta uma grave crise de credibilidade e de confiança perante os povos europeus e torna-se, pois, urgente fazer uma reflexão não apenas sobre o modo de enfrentar os desafios, mas também, e sobretudo, sobre o caminho a seguir.

Como tal, não podemos continuar a ignorar que os principais responsáveis por esta crise de confiança são precisamente os primeiros a aligeirar responsabilidades e a "sacudir a água do capote".

Os principais responsáveis por esta crise de confiança são alguns Chefes de Estado e de Governo que se sentam à mesa das cimeiras europeias, que decidem os Tratados e cujos governos aprovam a esmagadora maioria das decisões europeias.

Os principais responsáveis por esta crise de confiança são esses Chefes de Estado e de Governo que, numa atitude de cobardia e tentando agradar a todos, têm uma narrativa para a UE e outra para o país de origem. Isto porque é preciso não esquecer que se uns lhe dão legitimidade democrática, outros garantem a estabilidade da pertença a algo maior.

É necessário rejeitar este “europeísmo de conveniência” que só espera uma solidariedade unidirecional - de lá para cá -, que apenas se preocupa com os direitos e não com os deveres, que não tem problemas em fomentar e incentivar o medo de Bruxelas, como se de um vilão se tratasse.

Repito que o já aqui escrevi por diversas vezes, a crise de credibilidade da União Europeia assenta muito na "tradição nacional" de “Bruxelizar” os problemas e de nacionalizar as coisas boas. Mas não só: vivemos numa Europa a várias velocidades, com várias vozes, submersa em ficheiros de Excel e incapaz de apresentar uma solução comum para problemas como o da crise dos refugiados, que mais do que afetarem a soberania do espaço europeu, impõem respostas rápidas e desburocratizadas. E a verdade é que, todos estes pequenos sinais de desconfiança e de incapacidade do projeto europeu, somados não dão um bom resultado.

Nesse sentido, os movimentos populistas antieuropeus têm crescido à custa dos falhanços dos Estados-Membros, da respetiva responsabilização das instituições europeias que é invariavelmente feita pelos governantes e, obviamente, também por alguma incapacidade e falta de agilidade europeia a dar resposta aos problemas mais recentes.

Se é certo que o projeto europeu enfrenta um dos períodos de maior dificuldade da sua História, também não é menos verdade que sempre existiu em Portugal um amplo consenso em matéria de estratégia europeia e que foi sempre possível, e até prioritário, para o nosso País estar sempre na linha da frente do processo de integração europeia.

Nesta fase, seria importante fazer uma introspeção sobre o nosso papel na Europa e de que forma podemos dar o nosso contributo para ajudar a manter viva a chama do sonho europeu. Em tempos de dificuldades, todos devemos colaborar. O ex-Presidente da Comissão Europeia Durão Barroso, lembrou ainda este fim-de-semana, numa conferência organizada pelo PSD e pelo Instituto Sá Carneiro para celebrar os 30 anos da adesão de Portugal à UE, que para isso "não se pode ter um lugar de privilégio, temos que assumir as nossas responsabilidades".

Mas talvez o mais importante momento do dia das comemorações do Dia da Europa tenha sido a homenagem que ontem foi feita a um dos grandes europeístas portugueses, o grande Senhor do jornalismo português e europeu, Fernando de Sousa. Numa cerimónia em que não pude estar presente, o Comissário português Carlos Moedas apresentou o “Prémio de jornalismo Fernando de Sousa”, instituído por pela Comissão Europeia e que pretende homenagear e perpetuar a memória desse amigo que já partiu. O Fernando merece muito esta homenagem da Europa, do seu país e da “sua” televisão, a SIC.

Sem qualquer exagero, Carlos Moedas lembrou ontem que o Fernando de Sousa faz falta. À sua família e amigos, com certeza, mas faz falta à Europa. Se a Europa se consegue aperfeiçoar, adaptar e colmatar as suas lacunas, é em grande medida graças a pessoas como o Fernando, grandes jornalistas que estudam, analisam e informam, e nos ajudam a todos – políticos e cidadãos – a compreender melhor o que fazemos e porque o fazemos – e por vezes, também, o que deveríamos ter feito.”

A mim resta-me o orgulho de muito ter aprendido com o Fernando e de ter participado na conversa que deu origem a esta merecidíssima homenagem. Parabéns à SIC, em particular à Rebecca Abecassis, e à Comissão Europeia, cujo gesto muito se deve ao empenho pessoal do Comissário português Carlos Moedas.

P.S. Partilho aqui o testemunho que então escrevi no Expresso sobre o meu amigo Fernando de Sousa