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Expresso

A deriva de António Costa na Europa

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Num 1º de Maio que deveria ser marcado pela celebração dos direitos dos trabalhadores, o Primeiro-Ministro português brindou-nos com a mais irresponsável das declarações do dia, acrescentando mais um vértice à sua já desconcertante não-estratégia europeia, quando apelou à luta dos trabalhadores contra as políticas e instituições europeias. Será que confundiu a data com o 9 de maio, dia da Europa? Nick Farage, Le Pen ou qualquer outro anti-europeu não diriam melhor.

Foi precisamente para falar da estratégia europeia, ou falta dela, que na semana passada o Ministro dos Negócios Estrangeiros veio à Comissão de Assuntos Europeus justificar a "nova narrativa europeia" do governo por contraste com os anteriores, em particular o de Passos Coelho. Como só ele sabe, no seu estilo agora menos truculento, mas mantendo a habitual dose de cinismo inteligente, Santos Silva justificava o esquizofrénico percurso europeu de António Costa, e do seu governo, com a necessidade de diálogo com todos os países sem exceção, num diálogo "mais europeu". Segundo Santos Silva, se antes Portugal seguiria apenas a Alemanha, mas agora segue todos, eu diria, segue a Grécia.

Para o Ministro do Palácio das Necessidades, este governo respeita mais os valores europeus pois trata todos os Estados Membros por igual, mas pelos vistos há uns mais iguais que outros. Ora, depois da irresponsável deslocação de Costa à Grécia para assinar um "pacto anti-austeridade" com o agora "moderado" Tsipras, não obstante no dia seguinte este ter voltado a aumentar o IVA, o próprio MNE foi de imediato a correr para Berlim para dar nota que Portugal mantinha os seus compromissos apesar da selfie de Costa com Tsipras. Teria sido apenas estratégia para agradar a Catarina? Não é estratégia, é mera casuística, é navegar à vista como é, afinal, timbre deste Primeiro-Ministro.

O ziguezague diplomático de António Costa até pode ir resultando como forma de satisfazer a coligação, mas é degradante para a imagem externa do país e uma desgraça para a confiança do investimento estrangeiro. Está visto que a política europeia do executivo assenta em dois planos opostos, um para agradar à dupla Catarina/Jerónimo, e outro para satisfazer as leis europeias. Uma coisa fica clara, nenhuma das estratégias é do governo, este ou aplica a estratégia dos parceiros de coligação ou aplica a solução europeia, só não sabemos qual é a do PS.

Santos Silva veio também dizer que o governo anterior era muito "divisionista nas relações europeias" visto dar muita atenção à Alemanha e, segundo o nosso MNE, não deveria haver grupos dentro da UE nem alinhamentos entre países. Então pergunto eu: não foi o Partido Socialista que ao longo dos últimos anos exigiu que Portugal se tornasse aliado da estratégia de Hollande e de Renzi? Isso não era divisionista?

À luz das palavras do chefe da diplomacia, e ainda no que diz respeito a divisionismos, é oportuno perguntar: não foi PS, BE e PCP que exigiram ao anterior governo que alinhasse na estratégia de confrontação do Syrisa? Não foi António Costa que anunciou que uma "nova página" se abria na Europa? Pelos vistos, divisionista era a oposição e não o anterior governo. Portugal liderou sim um grupo de "fação", mas foi o "Grupo dos Amigos da coesão" para negociar as perspetivas financeiras, coisa que o atual Governo se tem esquecido de fazer mesmo quando se aproxima o "mid term review" do orçamento europeu.

Felizmente, Portugal nunca seguiu as recomendações em termos de alinhamentos europeus de António Costa, Catarina ou Jerónimo. Vejam como está a economia francesa ou situação de Itália. Os resultados dos gregos têm sido ainda mais desastrosos e atrás de austeridade tem vindo apenas mais austeridade.

A voz forte de Portugal na Europa só existe com credibilidade, com espírito construtivo e com uma estratégia responsável. Foi assim que Portugal se livrou da troika, alterou as condições de pagamento da nossa dívida, evitou um segundo resgate e um programa cautelar. Teve ainda tempo para forçar a criação da União Bancária e propor a reforma do semestre europeu.

A estratégia europeia do governo português, tal como no plano interno, não pode ficar refém de nenhum sindicato ou corporação. Se o Ministro da Educação se ajoelhou perante a FENPROF é agora o Primeiro-Ministro que se apoia no mais radical dos sindicatos para definir a sua política europeia, ignorando a Concertação Social e os respetivos parceiros sociais. Este sinal é inaceitável e gravíssimo.

A Europa de hoje não é "dominada" pelos papões do PPE, nem nunca foi, que agora apenas lidera 7 governos (Alemanha, Irlanda, Hungria, Bulgária, Roménia, Chipre e Espanha até ver) mas a postura do Conselho e da Comissão mantém-se a mesma. A razão não é a ideologia, mas sim o realismo. São os países, e não as famílias políticas, que fazem a "Europa" e cabe a cada Governo ter uma palavra construtiva no diálogo Europeu.

O projeto europeu não pode é continuar a ser o saco de boxe das frustrações dos chefes de governo. Por que talvez às vezes se esqueçam que se querem mudar a Europa, é a eles, apenas e só, que cabe alterar os Tratados.

Afinal, as instituições europeias apenas cumprem as regras que os próprios países aprovaram por unanimidade. Com o poder que têm nas mãos, não podem ser os Chefes de Governo dos Estados Membros da União Europeia a entregar, de "mão beijada", os argumentos destruidores da credibilidade europeia aos populistas e antieuropeus que apenas querem boicotar o sonho europeu.

A Europa de amanhã será, apenas e só, aquilo que quisermos e soubermos fazer dela.

P.S. A propósito do "seguidismo" face à Alemanha, este fim-de-semana um "eurocrata" finlandês, "habitué" do Eurogrupo, confidenciava-me que a ex Ministra das Finanças portuguesa era uma das raras exceções entre os Ministros no Eurogrupo que assumia posições antes dos alemães exporem a sua opinião, não esperando para saber qual seria a posição alemã. Ora, nem nisto a propaganda da extrema esquerda portuguesa condiz com a realidade.