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Expresso

Se a liberdade tivesse dono era uma ditadura

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“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos” foram as últimas palavras de Salgueiro Maia às suas tropas antes da partida rumo a Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 74, como ainda este fim de semana recordou José Francisco Gandarez nas Conferências da Liberdade que o PSD organizou em Santarém.

Ontem comemorámos mais um aniversário da Revolução dos cravos, celebrámos o 42º ano que vivemos em liberdade, recordámos um dos momentos de maior coragem e ação cidadã que a nossa pátria já conheceu.

Na "casa da democracia" ouvimos o Presidente da República apelar ao diálogo, à procura de maior consenso político entre os partidos, apelou a menos campanha eleitoral e a mais realismo na ação. Curiosamente, ou não, um discurso oportuno, proferido por um Presidente que é cada vez mais o Presidente de todos os portugueses, mas que acaba por repetir os apelos presidenciais já feitos no passado, mas agora com outro tipo de "aceitação".

O discurso presidencial provocou diferentes sensações aos vários grupos parlamentares, de apoio ou repudio, conforme cada parágrafo. No fundo, foi um discurso sem preferências partidárias, mas sobretudo com vários recados ao governo mas também à oposição, que cada um tentou interpretar à sua maneira. Os recados foram dados, o caminho definido, a democracia continua viva.

Um fator que teima em marcar esta, como anteriores cerimónias, pelo seu protesto ou apoio, tem sido a participação ou não dos "capitães de Abril" nas cerimónias oficiais na Assembleia da República. Na verdade, alguns capitães, mas em particular o Presidente da Associação 25 de Abril teimam em confundir o seu preconceito ideológico com a própria democracia, violando constantemente aquilo porque lutou Salgueiro Maia, o grande capitão de Abril, eleições livres e funcionamento pleno do sistema democrático.

O PSD aplaudiu sempre, como sempre aplaudirá os capitães de Abril e o seu legado político para o país e para os portugueses. A eles muito devemos a nossa liberdade. Não podemos é confundir isso com ações politicamente marcadas do seu porta-voz permanente, ao colocar em causa a sua participação nestas comemorações em função da cor política da maioria que governa. O seu legado democrático exige mais.

Ontem, eu, como a esmagadora maioria dos Deputados do PSD não aplaudiram o "regresso dos capitães de Abril" à Assembleia da República como referiram vários partidos bem como o próprio Presidente Eduardo Ferro Rodrigues (que merece o meu aplauso pela sua iniciativa de homenagear os Deputados "constituintes"). Aplaudimos sim, em uníssono, os capitães de Abril sempre que algum grupo político, a exemplo do PSD, ou do próprio Presidente da República, mencionou os feitos e os capitães de Abril. São questões bem diferentes que não se podem confundir nem manipular.

É por isso que me socorro para título desta crónica de uma frase muito utilizada pela JSD de Lisboa e que diz tudo sobre a atitude de alguns que, apesar de em democracia, se julgam donos da nossa liberdade.

Se Salgueiro Maia é um exemplo a seguir por todos, tal como o General Ramalho Eanes, pela sua bravura e coragem, mantêm o seu legado intacto pela postura e comportamento que revelaram após a revolução. A sua humildade, o seu caráter e o seu espírito de missão em função do interesse nacional, mas jamais em função da sua crença ideológica, fazem de Salgueiro Maia o verdadeiro herói símbolo da nossa democracia e da nossa liberdade. É por respeitar as instituições democráticas e os resultados da democracia, que Salgueiro Maia, mas jamais Vasco Gonçalves ou Otelo, tem o significado que tem para a nossa história.

A terminar, não podia deixar de relatar aqui a oportunidade que me foi dada de participar na mais emocionante cerimónia que testemunhei nestas comemorações anuais, a homenagem que o Presidente da República, a autarquia e a cidade de Santarém prestaram a Salgueiro Maia na terra que o adotou como o seu mais ilustre habitante. Marcelo fez questão de estar presente para de forma simples, bonita e muito honesta, no meio do povo, junto à viúva de Salgueiro Maia, a Professora Natércia Maia, homenagear o nosso herói. Jamais esquecerei o momento, simples, mas cheio de significado, em que a sua neta Daniela leu um poema que terminou dando a mão ao seu avó personificado na estátua que tornou eterna a sua presença física, porque da memória jamais se sumirá, na capital da liberdade.

Obrigado Capitão Salgueiro Maia.