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Expresso

A democracia brasileira é a verdadeira “geringonça”

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Aqueles que seguiram com atenção o processo de votação do “impeachment” da Presidente Dilma Roussef provavelmente terão ficado bem mal impressionados. E se não ficaram pelo facto de este ter sido aprovado, ficaram pelo menos pela forma, pelo estilo e pelos discursos da maioria dos deputados brasileiros, ao justificarem o seu voto. A verdade é que demasiados Deputados da maioria da maioria parlamentar que considera que Dilma não cumpriu os seus deveres enquanto presidente, não tem muita moral para falar.

Ainda assim, esse não deve ser o argumento para branquear ou esquecer as ações pouco claras – ou ilegais – de Dilma e do seu Governo. A acusação que Dilma enfrenta, por si, tem base legal e justifica a proposta de destituição. Não se trata de um golpe, não é admissível que assim seja chamado, sobretudo por aqueles que defenderam soluções semelhantes noutros países, ou que passam a vida a exigir a demissão de Presidentes e de Governos legitimamente eleitos.

Ao contrário do que muitos deputados brasileiros ontem disseram – e muitos apoiantes de Dilma que aqui, por estas bandas, tratam de repetir – a votação a que ontem assistimos não era sobre a hipotética condenação de Dilma por corrupção: a votação de ontem deveu-se, única e exclusivamente, a um procedimento próprio de um Estado Democrático de Direito, que atribui ao Parlamento a competência de fiscalização do Poder Executivo. Porém, também ficou claro que, a tese que sustenta a proposta de “impeachment” não é mais do que um pretexto para derrubar uma presidente que, alegadamente está envolvida «até aos dentes», num dos maiores escândalos de corrupção do Brasil. Mas talvez a maior motivação seja mesmo o estado calamitoso da economia brasileira e da desilusão de um povo.

Também se constatou com facilidade que a abertura do processo não se tratou de uma vingança das “direitas”, como muitos tentaram, cobardemente, fazer crer. Foram sobretudo os “aliados” de Dilma – principalmente o PMDB – que assumiram a dianteira do processo. Ou será que o Partido Trabalhista Brasileiro é de direita? O PPS é de direita? A REDE é de direita? O PDT e o PSB são de direita? Não, claro que não! E estes são quase todos os partidos do centro-esquerda ou esquerda que votaram pela destituição de Dilma. A maioria dos deputados que votaram pelo “impeachment” era da base do governo, até há bem pouco tempo!

Ao que parece, até pelos milhares de pessoas que vimos nas ruas do Brasil, enquanto se decorria a votação, os brasileiros estão efetivamente fartos de Lula, de Dilma e do PT, apesar de em tempos terem tido um papel fantástico no combate à pobreza. Acabaram por se deslumbrar e por assumirem-se como os “Donos Daquilo Tudo”. Até porque este escândalo não é novidade, nem é o primeiro: já tivemos o “Caso Petrolão” e o “Caso Mensalão”. Só num país como o Brasil é que o líder do partido ou o Presidente consegue passar incólume quando todo o seu séquito está envolvido em crimes. Alguém acredita que Lula não sabia das compras de votos do seu braço direito Dirceu no “Mensalão”? Pois… mas mesmo assim foi reeleito. Hoje, já todos perceberam que Lula e Dilma não são diferentes dos outros que têm sido acusados.

Ainda assim, admito também que este triste espetáculo a que assistimos no Domingo danifique ainda mais a imagem dos opositores de Dilma e, que esta pareça um «mal menor» para os brasileiros. Ontem, terá sim começado mais uma crise pois não é Temer nem Eduardo Cunha que os brasileiros querem. É mesmo preciso evitar que estes dois senhores possam aproveitar-se da queda eminente da Presidente para usarem o Poder para se protegerem, exatamente como Dilma fez com Lula.

Provavelmente, ao longo dos próximos dias a situação ainda vai piorar pois ficaremos a saber que propostas Lula e Dilma terão feito para comprar votos, num momento de puro desespero e loucura. Aguardemos agora pelo Senado, onde o nível do debate parlamentar é mais elevado.

O problema do Brasil ainda agora começou, e parece não ter fim à vista. Espero que as grandes personalidades deste nosso país irmão apareçam, contribuam para uma solução que volte a fazer do Brasil um país estável e em desenvolvimento. Os sinais que todos recebemos ao longo da última semana são muito preocupantes e não auguram nada de bom. Infelizmente.