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Expresso

Realismo europeu evitará o Brexit?

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O último Conselho Europeu e o anunciado referendo britânico colocaram os europeus perante o dilema de definir se o Reino Unido deve ou não ter um estatuto especial dentro da União Europeia. Quanto às diferenças em concreto já lá iremos, mas o que é facto é que a grande ilha britânica há muito que tem um estatuto e uma participação diferente dos restantes Estados-Membros. Até aqui não há novidade.

A Europa sempre andou a diferentes velocidades, quer através das “cooperações reforçadas”, quer através dos vários opt outs existentes nos diferentes tratados, nas diversas áreas ou em situações muito particulares como foi o caso do “rebate britânico”. Não se trata de uma Europa à la carte, onde cada um participa no que quer, nem ainda uma Europa de geometria variável, trata-se sim de uma Europa realista que se adapta em prol do maior interesse comum.

Não podemos esquecer que o hoje europeísta David Cameron é um dos responsáveis pelo ceticismo britânico, cavalgou a onda populista antieuropeia no seu percurso contra Tony Blair e tirou os eurodeputados conservadores do PPE, constituindo um grupo próprio ao qual se juntaram mais alguns eurocéticos. Felizmente mudou, percebeu que Londres precisa de Bruxelas, e que Bruxelas precisa de Londres. Percebeu também, talvez demasiado tarde, que Washington também precisava de Londres em Bruxelas.

Por mais dúvidas que nos suscite o estatuto especial que os restantes Estados-Membros prometeram a David Cameron, por mais indigestão que isso faça aos mais puristas, idealistas e federalistas, a verdade é que o realismo nos obriga a fazer uma opção. José Adelino Maltez dixit “realista é aquele que prefere tratar as coisas como elas realmente são”. Perante a rejeição dos pedidos de Cameron, que garantia a óbvia saída do Reino Unido, pois até o seu Primeiro-Ministro faria campanha a favor, ou a possibilidade de vencer o referendo, garantindo a permanência de um dos mais importantes países europeus, mesmo que isso ocorra à custa de cedências e privilégios, a minha opção é clara: ajudemos Cameron a vencer este referendo. A frase não é minha, mas sim de Enda Kenny, o Primeiro-Ministro irlandês, proferida em pleno Conselho e que traduz a posição de quase todos os restantes Primeiros-Ministros europeus. É disto que é feito o realismo.

A Europa cresceu graças à visão e coragem de diversos europeístas, como Schuman, De Gasperi, Churchill, Adenauer, Monnet, Henri Spaak, mas se o projeto europeu se fundou com base num sonho e num ideal, só sobreviveu e consolidou graças ao realismo e pragmatismo de outros líderes europeus que se lhes seguiram, como Kohl, Mitterrand ou Delors. Nenhum é dispensável, todos foram fundamentais.

O Reino Unido é parte fundamental desta UE, à sua maneira, mas constitui uma espécie de contrabalanço nesta Europa, de visão crítica, que tem vindo a contribuir para uma espécie de contraditório interno que fortalece a união e os seus pilares. Precisamos do nosso “awkward partner” firmemente dentro da UE.

Os ingleses, tal como muitos europeus, olham para a Europa como bode expiatório dos seus erros ou asneiras, pois em Londres, como em outras capitais europeias, é mais fácil acusar Bruxelas em vez de assumir as próprias fraquezas. Os britânicos não temem apenas a chegada de demasiados imigrantes, temem sim que a Europa legisle sobre o sistema financeiro e o mercado único e que isso coloque em causa a city londrina, a sua autonomia e liberdade.

Cameron não pode simultaneamente querer ficar fora do Euro e ao mesmo tempo ter direito de veto em matérias relacionadas com a moeda comum. Os britânicos não podem simultaneamente querer estar na Europa e ao mesmo tempo estar à margem das regras da união bancária. Os populistas britânicos anti-UE não podem simultaneamente querer participar no mercado especulativo do sector bancário e não contribuir para o esforço conjunto de regulação e proteção dos contribuintes.

Tal como em qualquer tabuleiro político democrático, não há direitos sem deveres. A Grã-Bretanha e a UE devem conseguir um equilíbrio justo entre a coesão interna dos seus cidadãos e o respeito pelos princípios do projeto europeu.

A Europa já enfrentou diversos desafios, uns mais difíceis que outros, mas na hora H sempre conseguiu seguir em frente de forma unida. Este é apenas mais um obstáculo, no meio de tantos outros, sob a pressão da crise dos refugiados, mas que acredito a Europa conseguirá ultrapassar, não apesar da Grã-Bretanha mas sim com a Grã-Bretanha.

Como dizia Fernando Pessoa “é preciso ser realista para descobrir a verdade”. A Europa fez-se de um sonho, mas também de uma necessidade e a verdade é que a Europa, tal como o Reino Unido, têm ambos mais a perder com a sua saída do que com a sua permanência, mesmo que condicionada. É o sonho que constrói a Europa, mas será o seu realismo que a protegerá e fará perdurar.