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Expresso

Parolice pop e o respeito pela identidade cultural

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A Europa recebeu na semana passada o Presidente do Irão, o senhor Rouhani, na sua primeira visita ao nosso continente após o levantamento das sanções, obtido por via do acordo nuclear.

A sua visita fica marcada por duas imagens impressionantes, o abraço caloroso com Francisco e a embaraçosa atitude do governo italiano, que decidiu cobrir estátuas como quem esconde os filhos na despensa para os convidados não os verem.

Estas duas imagens são claramente distintas e colocaram a Itália e o Vaticano em todos os escaparates pelo mundo fora. A atitude de Francisco, que repetidamente tem apelado à paz no Médio Oriente, só surpreende quem não o conhece. Assenta como uma luva nos valores europeus do respeito pela diferença, a tolerância e a paz, mas também pelo forte apelo ao diálogo ecuménico.

Por outro lado, a atitude de Renzi, o simpático e moderno primeiro-ministro italiano, contrasta claramente com o seu discurso até algo nacionalista, de defesa da cultura italiana e da sua história. Ao tapar as obras de arte, Renzi não revela respeito pelo seu convidado, revela sim uma enorme desconsideração pela sua cultura, pelos seus artistas, pela sua história, assim como pelos valores europeus. Algumas destas estátuas são ícones do classicismo e representações do humanismo, a base da fundação da cultura e civilização europeia.

Uma atitude ridícula ou classificada de "cobarde", segundo um editorial do La Stampa, que considerou esta decisão como um ato de "perfeita submissão". Um colunista italiano do La República disse mesmo que "para não ofender o Presidente do Irão ofendemo-nos a nós próprios." Ora, nem mais.

Imaginem que, a propósito de uma visita do Rei de Espanha a Portugal, o protocolo de Estado decidia cobrir a estátua da padeira de Aljubarrota para não embaraçar os espanhóis. Isso seria uma verdadeira parolice pop.

Atente-se em dois exemplos contrários. Horas antes do encontro com Renzi, o Papa Bento XVI recebeu o Presidente do Irão e, obviamente, também não tapou o seu crucifixo nem os símbolos do Vaticano. No dia seguinte, François Hollande recusou retirar o vinho de um almoço com o Presidente do Irão, almoço esse que foi cancelado, e não foi por isso que não assinou vários acordos económicos de cooperação.

Tem que ser possível negociar acordos económicos sem abdicar da nossa identidade. Roma tem muitíssimos espaços que, decerto, não ofenderiam o Presidente do Irão e evitariam esta humilhação a toda a cultura europeia. O que nos deve chocar é a facilidade com que se toma uma decisão destas, sem consciência, sem hesitação, numa humilhante e embaraçosa subserviência.

Ser simpático ou diplomático não pode significar ser submisso. A diplomacia económica não pode significar trocarmos os nossos valores por um prato de lentilhas.

O respeito é uma via com dois sentidos. Devemos receber todos, procurar integrar homens e mulheres de outras religiões, credos e culturas, mas não pode ser a cultura europeia a mudar para acomodar as restantes. Sabemos respeitar a diferença, não podemos é mudar a nossa forma de viver.

Os valores fundamentais da civilização europeia são demasiado importantes para serem colocados de lado. Preocupa-me sobremaneira que, por essa Europa fora, nos deparemos cada vez mais com maus exemplos em matéria de respeito pelos nossos princípios mais distintivos, como aconteceu recentemente na Hungria, na Polónia e, agora, até na Dinamarca. Esta sim, é uma verdadeira ameaça ao projecto Europeu.