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Noite eleitoral: Marcelo magnânimo e Nóvoa “de cátedra”

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Como todos esperávamos, Marcelo Rebelo de Sousa venceu as eleições presidenciais com larga margem, à primeira volta e à sua maneira. Eu gostei particularmente do facto de Marcelo ter sabido vencer, apelando desde logo à união, e de Nóvoa ter sabido perder, respeitado o resultado eleitoral quando disse que “Marcelo é a partir de hoje o meu Presidente”. Assim, Nóvoa não perdeu, ganhou o respeito de muitos de nós e Marcelo surpreendeu os seus detratores, mesmo que sejam poucos.

Se Marcelo demonstrou logo ali ao que vinha, diminuindo a crispação política, demonstrando que não haveria lugar a azedumes e que queria ser mesmo o Presidente de todos os portugueses, Nóvoa disse claramente aos seus apoiantes que o caminho terminava ali, que não deveria haver uma oposição ao novo Presidente e que aceitava Marcelo como "o seu Presidente". Foi digníssimo, sendo talvez o momento mais significativo de todo o processo eleitoral. Quem me conhece sabe o valor que dou aos que têm dignidade, tanto na derrota como na vitória. Não suporto quem não sabe perder e gosto ainda menos de quem não sabe vencer.

Na noite eleitoral, Marcelo e Nóvoa deram um grande exemplo ao país e aos portugueses. Era disto mesmo que o país precisava.

Mas regressando à campanha propriamente dita, o facto é que Marcelo é diferente, foi diferente de todos os outros, sendo igual a si próprio. Foi previsível na sua imprevisibilidade, foi desconcertante na gestão da sua campanha, foi talvez o candidato que menos surpreendeu, e porquê? Porque foi igual a si próprio, foi na campanha tal e qual como é na sua vida, principalmente ao longo dos últimos 20/30 anos. Foi autêntico e os portugueses valorizam cada vez mais isso. Os portugueses conhecem tão bem Marcelo que até as suas surpresas não são surpreendentes. Por essa razão, com este Presidente sabemos ao que vamos, seja para o bem ou para o mal.

Tal como aqui escrevi nas últimas semanas, Marcelo ia ganhar porque apostou em ser, de todos os candidatos, o mais independente do próprio partido, sendo que os seus adversários lhe fizeram o favor de publicitar essa característica que os portugueses tanto apreciam na sua escolha para Presidente da República. Essa mais-valia garante ao novo Presidente uma maior legitimidade para decidir, para criticar e, sobretudo, para indicar o caminho. Com este resultado e com esta campanha, Marcelo terá mais espaço para dizer "Não" a António Costa quanto tal se justificar, mas também para lhe prestar o apoio político necessário quando o país mais precisar.

No entanto, desta noite eleitoral há mais um vencedor, que passou despercebido mas não deve ser esquecido, o Partido Social Democrata. Ao contrário do PS, o partido liderado por Pedro Passos Coelho não se dividiu entre vários candidatos possíveis, soube respeitar o espaço do seu candidato natural, soube ajudar em alturas determinantes da candidatura e da própria campanha, gerindo a natural acidez criada pelo constante piscar de olhos de Marcelo à esquerda com tranquilidade, segurança e muita confiança. Marcelo sabe disso e sabe bem que o PSD percebeu como era mais útil a esta vitória. Na noite eleitoral, o PSD resistiu a canibalizar a vitória presidencial do centro-direita, quando até era legítimo que o fizesse para realçar a terceira derrota consecutiva de António Costa. Sim, o líder do Partido Socialista detém já o recorde de três derrotas eleitorais consecutivas em menos de um ano.

A terminar, não posso deixar de dizer que, apesar de todos os condicionalismos históricos e culturais, é possível um candidato de direita vencer em qualquer concelho do território nacional. Para tal, basta ter qualidade, credibilidade e ser melhor do que os outros. Este resultado prova, mais uma vez, que os eleitores portugueses são inteligentes, que sabem distinguir os atos eleitorais e que não votam apenas no candidato do seu partido. Mais uma boa lição, que todos devemos reter.