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Expresso

Opinião sem cerimónia

Há um pequeno Jerónimo dentro de António Costa

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Praticamente um mês após a tomada de posse do Governo de António Costa há uma palavra comum a várias decisões tomadas: embuste. Algumas das decisões até agora tomadas, ou são um embuste para a população ou são pura birra ideológica.

A coligação de quatro partidos que nos governa é constituída por aqueles partidos que, ao longo de 4 anos, acusaram o anterior governo de usar a austeridade como ideologia, que ultrapassava a própria realidade, como se austeridade tivesse ideologia, como se austeridade fosse de direita ou de esquerda, ou como se a ideologia fosse um crime. Pasme-se que agora sobrepõem eles próprios a ideologia à realidade, pois a reversão da privatização TAP não é mais do que uma birra ideológica onde a realidade prova que a reversão da privatização é apenas, essa sim, uma questão de princípio ideológico. Repito, a ideologia não tem mal nenhum, antes pelo contrário, é uma decisão entre dois caminhos cujo objetivo final é por vezes o mesmo. Errado é quando mudamos o rumo, já tomado, contra a razão, contra a realidade e contra a proteção do interesse público, apenas por uma questão ideológica. È isso que António Costa anunciou ao dizer: a TAP vai voltar a ser pública, custe o que custar aos contribuintes. Para Costa, como para Jerónimo ou para Catarina, mais importante do que os contribuintes, parece ser a ideologia ou o revanchismo.

Vejamos agora os vários embustes. PS, PCP, BE fizeram uma campanha eleitoral onde a principal diferença para a coligação PSD/CDS era a austeridade. A PAF queria continuar a repor os rendimentos gradualmente, o PS/PCP/BE anunciavam repor tudo de imediato. Catarina, Jerónimo e António anunciaram o fim da austeridade de direita, o fim do roubo, o fim da “pouca-vergonha”. Agora, passa a haver a austeridade de esquerda, não é roubo porque é feito pela esquerda, não prejudica ninguém porque “não é ideológica”. Nas pensões vamos ter uma reposição máxima de, pasme-se, 2,5 euros, enquanto nas pensões mais baixas é de 0,6 cêntimos. Sim, era este valor que fazia a diferença entre uma vida digna ou de pobreza. Este é o primeiro embuste. Vão repor as pensões mas afinal repõem apenas um “poucochinho” e anunciam o fim da austeridade de direita. Agora temos a “austeridade boa”, de esquerda.

O segundo embuste do Governo foi o fim das taxas moderadoras na saúde para os doentes encaminhados dos centros de saúde para os hospitais. Seria isso que ia salvar o SNS? Talvez. Mas essa medida genial já estava em vigor, já existia. Mais um embuste.

Outro embuste foi na Cimeira de Paris. Segundo fonte do Gabinete do atual PM “O Governo de direita esqueceu-se de inscrever o novo PM para falar”. Veio a provar-se que era mentira, que a diplomacia portuguesa, por ordem do Governo anterior e da qual António Costa fora avisado pelo ex PM Passos Coelho, tinha reservado junto da organização o direito de inscrever o novo PM assim que tomasse posse.

O embuste seguinte foi o cumprimento do défice abaixo dos 3%. O novo Conselho de Ministros “conseguiu salvar o défice português” aprovando medidas “placebo”. A primeira era não descongelar as verbas cativadas, a segunda era não fazer nova despesa não urgente e não prevista, a terceira era cortar 46 milhões de euros da despesa, ou seja 0.026% do PIB. Quer tudo isto dizer que o novo governo decidiu não estragar, não mexer, não alterar o caminho que estava previsto. Tiveram ainda a coragem de criticar o facto da meta dos 2,7% não ser fácil de atingir, os mesmos que há 4 anos deixaram um défice de 11,4%.

O mais recente foi a reversão da privatização da TAP. Ao dizer que chegaria a acordo “a bem ou mal”, pré-anunciando a nacionalização de parte do capital da TAP, António Costa revelou o pequeno comunista que tem dentro dele. Bluff ou simples estratégia de negociação com o PCP, e não com os novos donos da TAP, António Costa deu um péssimo sinal aos empresários, aos investidores externos e ao país. O PM sabe os custos que isso tem, financeiros e de imagem do país, sabe que isso não é o melhor para a TAP nem o melhor para os portugueses. Apenas faz este anúncio para contentar o seu parceiro Jerónimo, a quem parece demonstrar que vai cumprir o acordado. Mais cedo ou mais tarde Costa usará a desculpa da Comissão Europeia, da DG Concorrência e dos custos da operação, para dizer a Jerónimo que…afinal não dá. Mais um embuste, mas agora apenas dedicado ao PCP e ao BE.

Como aqui escrevi há algumas semanas nada disto é novo, nada disto me surpreende. Espero que não, mas em breve veremos o desemprego a aumentar, a dívida a subir, os impostos a crescer, o investimento externo a baixar e a balança comercial a desequilibrar.