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Expresso

Le Pen “deu-nos” uma segunda oportunidade para aprender

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Os resultados finais das eleições regionais francesas revelam muito mais do que uma aparente derrota da Frente Nacional. Talvez revelem mesmo uma segunda oportunidade para os partidos de centro, uma oportunidade para corrigirem os seus erros.

A pré-anunciada vitória do partido da família Le Pen acabou por não se confirmar, afinal a Frente Nacional não ganhou em nenhuma região, mas isso não nos deve fazer esquecer o incrível número de votos (6,6 milhões) que obtiveram. Absolutamente, assustador.

O fato de se tratarem de eleições regionais, onde a proximidade tem um valor acrescido, preocupa-me ainda mais pois isto significa que o conjunto de personalidades que integram as listas da FN são pessoas com impacto e relevância locais. Não se trata, apenas, da senhora Le Pen e da sua sobrinha. Não se trata, apenas, de um fenómeno de Paris ou de algumas zonas mais urbanas. Estas eleições provam que a Frente Nacional tem verdadeira expressão nacional, mesmo em regiões sem problemas aparentes de segurança ou de xenofobia.

Existem, certamente, milhões de pessoas que votam na FN e que não são nem racistas nem xenófobas, mas que votam em Le Pen porque não encontram resposta credível para os seus problemas nos outros partidos. O problema está, precisamente, aqui. A extrema-direita ganha terreno quando os centro e os moderados não dão conta do recado.

Combater a Frente Nacional, os seus preconceitos e as suas teses, deve ser uma obrigação de qualquer democrata. Este resultado significa que num dos maiores países da União Europeia, um dos seus esteios fundacionais, existe uma significativa mancha de apoio a partidos extremistas que já ultrapassou os residuais 4% a 5 % de eleitorado. Não está assim tão longe a possibilidade de a França ter uma Presidente xenófoba, uma extremista. As propostas da Frente Nacional são uma ameaça à sociedade em que vivemos, são uma ameaça grave ao projeto europeu, mas também ao nosso modelo económico, à economia social de mercado e ao espaço de livre circulação de pessoas e mercadorias.

Noutros tempos diríamos que não é um problema nosso, mas da França. No entanto, sabendo que o Presidente francês se senta no Conselho Europeu, participa nas decisões que dizem respeito a Portugal e à União Europeia, onde estamos (com orgulho) integrados, todos nos devemos preocupar com o que saiu das urnas francesas no último domingo.

Já todos vimos este filme quando o Syriza, de extrema-esquerda, ganhou as eleições gregas com um programa igualmente assustador para qualquer cidadão responsável. Felizmente embrulharam esse programa. A extrema-direita não é pior do que a extrema-esquerda como ameaça à nossa organização enquanto sociedade e à forma como escolhemos viver.

A FN perdeu estas eleições mas teve o seu melhor resultado de sempre. Esta derrota parcial, que acontece apenas pela circunstância de em França existir um sistema eleitoral que ocorre a duas voltas, deve ser vista como uma segunda oportunidade para os partidos moderados abrirem os olhos. E, sobretudo, fazerem alguma coisa para recuperarem a sua credibilidade junto dos eleitores.

Se os partidos moderados não souberem aproveitar esta segunda oportunidade, é bem provável que Marine Le Pen venha a ser a futura Presidente de França. Em política não costumam existir segundas oportunidades, mas a democracia francesa resolveu proporcionar esta. Saibamos aproveitá-la.

A terminar, não poderia deixar de registar que o Partido Socialista francês decidiu apelar ao voto nos Republicanos, de centro direita, para evitar a vitória de um partido extremista.

Por cá, António Costa decidiu aliar-se, precisamente, aos partidos extremistas para garantir o seu acesso ao poder. Até nisso, somos bem diferentes.