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Opinião sem cerimónia

Porque falhou o populismo na América Latina?

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As lideranças de esquerda na América Latina trouxeram muita esperança às populações destes países, quiseram marcar a agenda internacional, ousaram até exportar o seu modelo para outros blocos regionais, mas resultaram todos em fracasso, em escândalos de corrupção, em atropelos à democracia, e sobretudo numa grande desilusão. Em muitos destes casos resultou no agravamento das condições de vida das populações mais desfavorecidas.

O prometido sonho de Lula no Brasil, de Chavez na Venezuela, de Evo Morales na Bolívia, de Rafael Correia no Equador, ou até de Kirchner na Argentina, tinha afinal pés de barro e mãos sujas. Em sentido contrário parecem caminhar os países mais moderados e menos revolucionários como a Colômbia ou Chile. O modelo de desenvolvimento da maioria destes países, que não é diferente de Angola e outros países produtores de petróleo, assentou fortemente no “superciclo das matérias-primas” como foi apelidado pelo Miguel Monjardino na última edição do Expresso. Os seus orçamentos e políticas públicas, mais ou menos populistas, ficaram demasiado dependentes das flutuações dos preços no mercado das respetivas matérias-primas.

O resultado de ontem na Venezuela não ocorreu apenas porque Maduro não é Chavez, ou porque a oposição “UNIDAD” trabalhou melhor do que em eleições anteriores. A vitória da oposição unida surge porque a revolução bolivariana falhou no seu principal objectivo, porque hoje a fome é um problema que afeta milhões de venezuelanos. Sim, e tudo isso aconteceu porque o preço do petróleo está como todos sabemos, porque o regime venezuelano foi irresponsável, porque se convenceu que o populismo lhe garantia apoio suficiente, mas sobretudo porque destruiu as instituições, usurpou todo o Estado e retirou a liberdade aos cidadãos.

O populismo e a irresponsabilidade acabam sempre por ter como primeiros prejudicados os mais pobres, os mais desprotegidos, ou seja aqueles que eram a primeira razão destas políticas. Cá como lá, a diferença não está entre a esquerda e a direita, entre o socialismo, a social-democracia ou o liberalismo, o que distingue os países que têm ou não sucesso é sobretudo a responsabilidade, a competência e o realismo com que desenvolvem as suas políticas.

Arrepia-me pensar que parte do grupo de ideólogos de Hugo Chavez e da Revolução Bolivariana são hoje os dirigentes máximos do Podemos em Espanha, aquele que seria o primeiro projecto bolivariano em território europeu. Ou será que foi a Venezuela a primeira cobaia de um grupo de populistas europeus com base numa universidade espanhola que tinham como campo de treino a América Latina? Um dia saberemos.

Os programas de partidos como a Frente Nacional em França, o Syriza na Grécia, o Podemos em Espanha, o Partido dos Trabalhadores no Brasil, o PCP e o Bloco de Esquerda em Portugal e até o programa de Donald Trump nos EUA, têm demasiadas semelhanças e pontos em comum para ficarmos descansados. O extremismo, de esquerda ou de direita, merece uma resposta responsável, equilibrada e sobretudo inteligente. É este o desafio dos partidos moderados a quem cabe combater a irresponsabilidade e o desvario. Os exemplos da Venezuela ou até da Grécia são um belo espelho daquilo que alguns defendem por cá (sugiro a leitura do comunicado de ontem do PCP sobre as eleições na Venezuela em http://www.pcp.pt/solidariedade-com-venezuela-bolivariana).