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Expresso

Um conto de crianças, à portuguesa

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Era uma vez um partido, favorito à partida, que tinha perdido as eleições. Depois de se digladiarem em combate, dois outros partidos minoritários, também derrotados, juntam-se ao principal perdedor e tentam chegar a um acordo. Mas, tendo em conta os seus programas, esse acordo só seria possível na terra da “Alice no país das maravilhas”. Decidem então rasgar os respetivos programas eleitorais, queimam a história dos seus partidos, e compram-se reciprocamente. Para todos ficarem contentes, e para comprarem a simpatia da inocente população, combinam aumentar pensões e salários, baixar o IRS, baixar o IVA da restauração e sabe-se lá mais o quê, pois o acordo entre eles continua secreto.

Após os primeiros dias estarão todos contentes e orgulhosos, a população estará satisfeita, e nesses primeiros meses há uma euforia por todo o país. Afinal era possível acabar com a austeridade e dar dinheiro às pessoas. São verdadeiros heróis, génios. No fundo, vão tentar comprar a felicidade das pessoas apesar de não haver notícia de petróleo nem no Rato nem na Praça do Comércio.

Depois de comprada a população e o respetivo apoio popular, numa espécie de PPP à “la Paulo Campos e Sócrates” vai ser necessário apresentar uma nova narrativa. Afinal, não apareceu petróleo em lado nenhum, é preciso arranjar um bode expiatório e alguém que pague a conta. Sinceramente, penso que já li este conto, terá sido em 2011 com José Sócrates?

Aqui começa um novo episódio, o segundo

Era uma vez um Primeiro-Ministro chamado António Costa que percebe que o seu cenário macroeconómico não previa estas “excentricidades”. É então necessário encontrar um culpado, um “Mau da fita”, neste caso a Coligação PSD/CDS, que aguente a responsabilidade pelo agravamento das contas públicas, pelo aumento dos juros da dívida pública e pelo agravamento da situação económica. É aqui que António Costa sacará o seu “Coelho da cartola”, inventará um buraco, dirá que afinal as contas não estavam como lhe haviam prometido, que Passos Coelho tinha deixado dívidas debaixo do tapete, tal e qual como Sócrates havia feito e que, por essas razões, já não era possível continuar a dar dinheiro e felicidade às pessoas.

Ou seja, como em qualquer conto de crianças, de início vão tentar comprar a esquerda para mais tarde governar à direita, como é timbre do tal partido que perdeu as eleições.

Terceiro ato deste conto

Era uma vez um partido socialista que vai romper com o BE e com o PCP pois com os cofres vazios vão ter de exigir ao PSD/CDS que apoiem um pacote de austeridade, provavelmente um novo resgate ou um novo PEC, para corrigir a desgraça que foram os primeiros meses da governação. Como em todas as histórias tristes deste país, o PS de António Costa sabe que pode contar com o PSD/CDS para limpar as asneiras que os socialistas fazem cada vez que estão no governo. Aliás, a Deputada do PS, Isabel Moreira, já veio dizer que o responsável pelo novo resgate será o Presidente Cavaco Silva…eles não escondem ao que vêm e anunciam sempre um culpado.

A coligação de esquerda “gauche caviar” olha para o país com superioridade moral, com fome de poder, que os leva a passar por cima da sua própria história em troca de um objetivo de curto prazo: impedir um novo governo de direita. Da parte do BE estávamos já habituados a isto, com o PS fomo-nos habituando desde que Costa assumiu a liderança e o PCP faz-nos lembrar uma noiva hesitante a caminho do altar.

Esta esquerda que se ofende porque o Presidente da República falou num decibel acima do esperado, e do recomendado, é a mesma que grita impropérios todos os dias, chamando ladrão, corruptos “sem vergonha”, a todos os que discordam de si. Catarina é a mesma pessoa que há pouco mais de um mês dizia que o papel do Presidente era claro pois devia “nomear o líder do partido com mais votos nas urnas”. Ora, é também a mesma pessoa que agora acusa Cavaco Silva de ser um golpista criminoso igual àqueles que a inspiram, como Trotsky, Lenine, Fidel ou Che Guevara, apenas e só porque o Presidente da República cumpriu a Constituição da República Portuguesa.

Alguns dirão que é um movimento de mudança ou que é o romper de tradições fora de moda. Mas eu confesso que preferia ver esta mesma força de esquerda a contribuir para acabar com outras tradições, como o corporativismo de alguns sindicatos e grupos profissionais, a combater os grupos económicos, quais castas, que sobreviveram anos à sombra do suposto interesse nacional, a combater as fraudes no serviço nacional de saúde e da segurança social. Gostava de os ver a combater as injustiças que eles próprios ajudaram a criar como resultado da sua incapacidade de se adaptarem a novas realidades.

Fica cada vez mais claro que António Costa não consegue um acordo duradouro e estável com o PCP e com o Bloco. Fala-se até de dois acordos paralelos, secretos e sempre escondidos. Por que será? Fica evidente que o único acordo que é comum é a rejeição do programa do Governo PAF. E depois? Corremos o sério risco de ver um governo com o programa rejeitado e não haver depois uma alternativa sólida entre os três partidos de esquerda. A entrevista de Jerónimo de Sousa à TVI confirma o discurso do Presidente da República e as dúvidas que surgiram no dia da audiência do PCP, e dos Verdes, com o Presidente. Sem garantias, nem compromissos sequer, para aprovar o primeiro Orçamento do Estado.

Hoje, face às hesitações do PCP, fica clara a falta de solidez do acordo apresentado por António Costa a Cavaco Silva. O PCP sabe perfeitamente o resultado final de um governo de coligação entre PS-BE e PCP: uma nova bancarrota, um novo resgate e mais uns anos de sacrifícios.

Regressando ao conto de crianças, tal como aconteceu na Grécia, o PS, o verdadeiro Syriza português, tentará “comprar” a população através da simpatia de algumas medidas, culpará o passado pelos resultados da sua governação e ver-se-á obrigado, e a todos nós, a aplicar, tal como o Syriza, medidas ainda mais duras do que inicialmente. Com esta brincadeira, ou conto de crianças, vão para lixo quatro anos de sacrifícios, a situação ficará ainda pior e um novo resgate virá a caminho. Costa quer realmente ficar na história como o quarto socialista a chamar a troika.