Siga-nos

Perfil

Expresso

Regressemos à noite eleitoral

  • 333

Ao longo das últimas semanas assistimos à queda de bandeiras históricas de alguns partidos, de verdadeiros pilares ideológicos, com a mesma facilidade com que se pede um copo de água ou se acende um cigarro.

O que diz muito da convicção das suas ideias, da ética das suas intervenções, mas sobretudo da sobreposição da tática aos seus ideais.

O que transparece da espuma destes dias é que há quem seja capaz de tudo. O PCP e o Bloco andaram anos, tal como na última campanha, até mesmo ao dia 2 de Outubro de 2015, a defender um modelo de governação que não tem qualquer semelhança com as regras europeias que subscrevemos, ou seja, uma antítese do programa eleitoral do PS. Este, por sua vez, fez campanha a denunciar o radicalismo do Bloco e do PCP, que para os socialistas eram os responsáveis pela vitória da “direita”, por terem um programa irrealista e agirem apenas como força de contrapoder.

Anos de doutrina, milhares de reuniões de reflexão, milhões de votos expressos ao longo de décadas, centenas de programas eleitorais, milhões de pessoas em manifestações, greves, debates e discursos que, no fundo, se tornaram toneladas de memórias enviadas para o lixo num escasso par de horas. Ninguém, nem nenhuma condição legítima ou profunda, faz três partidos mandarem às urtigas pilares da sua visão programática, dos pilares do seu discurso e, sobretudo, romperem com a coerência de discurso parente os seus eleitores. A lei da evolução das espécies também se pode aplicar aos partidos, dado que todos evoluem, até o PCP, mas nada muda de um dia para o outro, nada muda assim por “parto natural” e tudo tem uma razão de ser.

Resta assim saber se a motivação de cada razão de mudança é eticamente louvável ou não. Por isso, esta mudança prova uma de duas coisas:

- ou têm consciência que as ideias que há anos defendem não são realistas, não funcionam e estão desatualizadas no tempo e as defendem mas não acreditam nelas. O que por si mostra a fragilidade ideológica na qual se revestem.

- ou então acreditam verdadeiramente nas suas ideias e apenas abdicam delas para, qual força negativa, tentar impedir um governo de direita de tomar posse, num mero oportunismo imoral.

No entanto, a posição do PS é a mais surpreendente de todas. O partido que agora se apresenta como “partido cordeiro” ou partido moderado entre dois blocos radicais (nas palavras de um seu dirigente), atira para o caixote do lixo as suas marcas histórias, a sua ideologia fundacional só para, de forma maquiavélica e desesperada, tentar a todo custo entrar no poder, apesar de ser o principal derrotado das eleições legislativas.

O que hoje está em causa para a vida dos portugueses é a procura de uma solução governativa de estabilidade para os próximos 4 anos. Mas parece que o único objetivo que reúne consenso entre os três partidos mais à esquerda (PS-PCP-BE) é o de impedir que um Governo PSD-CDS tome posse, a ponto de os fazer descartar grande parte das suas bandeiras, como se de uma peça de teatro se tratasse. O que só prova, mais uma vez, que é uma coligação negativa entre partidos que apenas parecem agir por rancor e não por convicção. É uma coligação frágil, contranatura por interesse, que se esquece de toda a ética política que deve estar presente para aceitar os resultados de uma eleição e ouvir a voz dos portugueses.

A Coligação PàF obteve mais votos, elegeu mais deputados do que qualquer outra alternativa - E digo alternativa porque todas as outras opções se apresentaram a eleições sem dizer ao que vinham. A Coligação PàF tem um programa consensualizado há já 4 anos, é formada por dois partidos que garantem estabilidade e há muito partilham o compromisso de alcançar as obrigações internacionais de Portugal.

O desejável para o país era regressarmos todos à noite eleitoral, principalmente o PS e a PàF, às ideias pronunciadas pelos líderes nessa noite.

Aí, António Costa assumiu a derrota e exigiu ao futuro Governo uma negociação com o PS em áreas que considerava fundamentais.

Pedro Passos Coelho assumiu a vitória, reconheceu humildemente a perda da maioria absoluta e demonstrou total abertura para negociar com a oposição, tal como foi ditado pelos resultados eleitorais, mencionando mesmo as quatro prioridades referidas minutos antes pelo PS.

O prolongar desta agonia de António Costa em busca do poder, por vislumbrar uma oportunidade de ser Primeiro-Ministro por um par de meses, não traz nada de bom ao País, aos portugueses, à nossa economia e às nossas empresas. Muitos dizem que agora é o tempo da política, mas temo que estejamos a assistir à politiquice e não à política de P maiúsculo. À esquerda sentiram, recentemente, o faro distante do poder e ficaram inebriados. Mas Portugal e os portugueses merecem muito mais do que políticos que reagem, apenas, a instintos básicos do poder.