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Expresso

Ribatejo: as prioridades inadiáveis para os próximos anos (cuidados de saúde e o rio Tejo)

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A sustentabilidade do rio Tejo é tão importante que exige medidas drásticas como a suspensão das licenças de funcionamento das empresas poluidoras e o boicote aos seus produtos. A água e os cuidados de saúde primários são as prioridades para os próximos quatros anos

Antes de mais, e para evitar perdas de tempo, quero destacar que este é um artigo para quem quiser conhecer os problemas do Ribatejo e as prioridades que um candidato a Deputado deve defender para o seu distrito. É um artigo para quem considera legítimo e útil o exercício da transparência e o compromisso político público, em defesa de causas comuns a uma região.

Ribatejo, região barómetro

O Ribatejo e o distrito de Santarém são, para mim e por diversas razões, uma espécie de "coração de Portugal". Quer do ponto de vista político, geográfico e económico, este distrito é uma espécie de barómetro do que se passa no país, ou em linguagem geopolítica digamos que é o "heartland"continental. É um distrito rural e urbano, de interior e de litoral, com lezíria e serra, com indústria pesada e tecnologia avançada, mas também de grandes fundiários agrícolas e pequenos agricultores de subsistência.

O distrito tem um tecido empresarial cujo crescimento económico é superior à média nacional, tem uma rede social em que jovens, idosos e pessoas com necessidades especiais têm uma cobertura notável, um património cultural e religioso ímpar, uma gastronomia invejável e duas instituições de ensino superior que, se bem coordenadas com a comunidade, podem catapultar o distrito para um desenvolvimento ainda melhor. Podia aqui elencar diversas questões que exigirão a nossa preocupação ao longo dos próximos anos, e que de certeza merecerão a nossa atenção, tal como a correção do mapa judiciário, a ligação entre algumas vias de comunicação ou o apoio às pessoas e empresas. Mas opto por destacar aqui apenas duas prioridades que considero fundamentais: os cuidados de saúde e a sustentabilidade do Tejo.

Boicotar empresas poluidoras de rios como o Tejo

Se há matéria que nos une, ou pelo menos que caracteriza grande parte do Ribatejo é precisamente o rio Tejo. Recurso de inegável beleza e história, fundamental não só para a nossa cultura, como também para a nossa economia e sobretudo para a nossa identidade coletiva. O Tejo não tem sido bem tratado e exige o nosso total empenho na garantia da sua sustentabilidade. Esta não é uma batalha, é uma guerra para ser travada ao longo dos próximos anos. Recentemente negociaram-se os caudais com Espanha e decorrem as negociações com os operadores das barragens, para garantir um caudal ecológico, construíram-se novas ETAR e a caracterização das margens está em curso. O combate à poluição tem hoje uma dimensão nunca vista mas isso não chega, precisamos de fazer mais.

As consequências da poluição do Tejo, tal como a dos outros rios, é demasiado perigosa para o ecossistema mas também para a nossa saúde. As multas estão mais elevadas, as investigações mais intrusivas e o controlo mais eficaz, mas não deixa de ser necessário dar o passo seguinte e tomar medidas mais drásticas, quer por parte das autoridades governamentais e fiscalizadoras, como por parte dos cidadãos enquanto comunidade. Admito que o caminho possa passar por suspender licenças de funcionamento das empresas prevaricadoras, boicotar a compra dos seus produtos e impedir o acesso a fundos comunitários e concursos públicos das empresas envolvidas. Sim, são medidas dramáticas... Mas o que está em causa é demasiado importante para sermos brandos na resolução do problema.

Garantir cuidados de saúde para todos

Não poderia escrever um artigo sobre o Ribatejo sem apontar como prioridade a questão dos cuidados de saúde primários mas também hospitalares. Um distrito com quatro hospitais, uma herança irresponsável de anos de políticas públicas mais populistas que realistas, não pode continuar a ter tantas dificuldades e incertezas na prestação de cuidados de saúde hospitalares. Maior cooperação e partilha de recursos entre todas as unidades, mas também maior autonomia de gestão e de contratação de pessoal são fatores determinantes para corrigir a situação atual!

Quanto aos cuidados de saúde primários, o problema reside essencialmente na falta de médicos e só dentro de três anos teremos médicos suficientes em Portugal, para dar resposta às condições atuais. O reforço das já existentes medidas de atratividade como os salários e a flexibilidade de horários, a discriminação positiva do interior e alguma obrigatoriedade de permanência em funções, constituem medidas excecionais e inadiáveis para garantir que durante os próximos anos tenhamos no Ribatejo cuidados de saúde para todos. Um distrito com 4 hospitais tem que ser autossuficiente em matéria de cuidados de saúde, não pode perder tempo com bairrismos e populismos fáceis em torno de um tema tão sensível. A necessidade de consenso político responsável entre os partidos políticos do arco da governação é essencial para resolver definitivamente os problemas de saúde da região e do país. Espero que exista coragem e bom senso para tal. Afinal, o que é que está em causa?

Em ambos os casos (cuidados de saúde e rio Tejo) já fizemos propostas e conseguimos algumas vitórias...mas ainda não foram suficientes para resolver os problemas que persistem. Resta-nos continuar a lutar.