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Expresso

Carta a um candidato indeciso

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Caro Amigo, porque lhe escrevo?

A 4 de Outubro realizam-se eleições e sinto que devo alertá-lo para a importância desse momento. É um momento de grande elevação, onde se manifesta a vontade de um povo que tem de ser respeitado e que não pode ser ludibriado com fugas à verdade.

Também sinto necessidade de explicar o que defendo para Portugal. Sobretudo, a necessidade de explicar o que não quero que volte a acontecer ao meu País. Mas prefiro fazê-lo ao vivo e não escondido detrás de uma plataforma de unilateralidade.

Porquê? Porque prezo a proximidade, o diálogo permanente, a vontade de ouvir. E porque quero falar de temas que importam e que são decisivos para o dia-a-dia dos portugueses.

E, Não!, não falo de uma invasão de marcianos. Essa é mais uma manifestação da sua propensão para a ficção e a prova de que se sente como peixe na água em cenários idílicos, pouco ligados à realidade e ao esforço dos portugueses.

Mas atente, senhor candidato indeciso: há o perigo colossal de se deixar enredar nessa história que construiu e que tantas vezes repete na esperança de que a mentira tantas vezes repetida, encontre o selo da verdade. A sua fórmula para o crescimento da economia é tão irrealista como uma invasão de seres de outro planeta. Mas, o mais grave, é que seriam os seres deste planeta que teriam de sofrer as consequências dos seus desvarios. Aliás, tal como já aconteceu no passado. Eu, como muitos outros, não esquecemos do que poderia ser uma sua hipotética declaração: "Fui número dois de Sócrates, no Governo e no PS. Estive ao lado dele até ele cair em desgraça. Apesar de número dois do Partido Socialista durante anos a fio, nada fiz para o impedir de levar o meu País, novamente, à falência".

Escrevo-lhe porque me sinto impelido a dizer-lhe que não fica bem mentir aos portugueses. Não fica bem ignorar os sinais de recuperação que são fruto do esforço diário das pessoas, das famílias e empresas - as tais que, insistentes vezes, refere que conhece tão bem! Também já lhes escreveu cartas? Aliás, deixo-lhe uma sugestão: escreva, também, uma carta aos empresários, que tanto têm exportado e que tantos empregos têm criado, a dizer-lhes que o seu esforço não valeu de nada e que o país está cada vez pior.

Perguntará: “Vale a pena votar”? Vale sim! Para quê? Para evitar que Portugal seja atropelado e sujeito a mais bancarrotas.

Li atentamente a sua carta, a que escreveu aos eleitores indecisos. Não o critico por escrever uma carta. Quem sou eu! Várias foram as que escrevi a vincar as minhas posições. Critico, sim, o seu conteúdo, o seu desplante e desfaçatez. Deixo-lhe um desafio. A si e a todos os que leram a sua carta: experimente reproduzir a sua missiva colocando antes de cada parágrafo o seguinte prefixo: "Por obra minha e do meu partido". Assim, sendo, a título de exemplo, cito agora a versão acertada da sua carta: “Por obra minha e do meu partido têm sido anos muito duros para as pessoas, as famílias e as empresas" e de "grande retrocesso económico e social"; ou, então, "Por obra minha e do meu partido” “feriram-nos na nossa auto-estima coletiva, puseram em causa a confiança que depositávamos nas instituições, geraram o sentimento de abandono em muitos territórios, provocaram a descrença no projeto europeu, trouxeram o sobressalto e a instabilidade para o quotidiano, a perda de pensões para os idosos, a precarização para os jovens, a ameaça do desemprego para todos".

Claro que não acredito no seu arrependimento, tão pouco no do PS, mas seria um bom início de conversa vê-lo reconhecer a vossa responsabilidade na bancarrota. E, já agora alguma humildade na valorização do progresso que Portugal fez nos últimos anos. Ou, se preferir como apregoa que agora prefere, recordo-lhe uma máxima de Manuela Ferreira Leite que tanto criticou: “Política de verdade”.