Siga-nos

Perfil

Expresso

Tsipras grego vs.Tsipras europeu

  • 333

Introdução – O líder grego tentou mudar a União Europeia antes de tentar arrumar a sua própria casa. Ao contrário de Passos Coelho, não procurou ganhar o respeito dos pares europeus para conseguir mudar as regras e condições do seu memorando. A corajosa versão de Tsipras europeu faz falta na ordem interna para reformar o status quo grego.

A semana que terminou teve um final feliz, mas os dias que o antecederam foram terríveis para todos. Portugal e a Europa estavam no meio do turbilhão grego e a crise da economia chinesa ameaçava contaminar todo o globo. O sinal de que estamos mais fortes é Portugal ter conseguido sobreviver a esta instabilidade sem sobressaltos e, graças à almofada financeira que o Governo garantiu, podemos hoje atravessar estas crises com mais segurança.

Boa solução...para já

Contudo, hoje não é dia de fazer as contas sobre quem recuou mais ou menos. O que interessa é que há acordo e no final correu bem. A Grécia recebe o dinheiro de que precisa e a UE garante que Tsipras vai fazer as reformas estruturais necessárias que adiou inexplicavelmente durante 5 meses. Ou melhor, o acordo só é bom porque obriga os gregos a fazer reformas que a nós até nos parecem básicas e elementares, senão vejamos algumas: garantir a sustentabilidade do sistema de pensões; mudança no IVA que atualmente poupa grande parte do comércio; iii privatizações (eletricidade, portos comerciais, etc); despolitizar imediatamente a administração pública e combater a corrupção; construir uma máquina fiscal eficiente; assegurar a independência sistema nacional de estatísticas; acabar com as isenções fiscais para as ilhas (com forte economia turística).

Feridas que ficam ou que curam

Este Conselho Europeu provocou feridas, sobretudo entre os pares europeus, mas a consolidação do projecto europeu tem sido feita de momentos críticos como este a que todos assistimos. Espero, sinceramente, que o projecto europeu acabe por sair mais forte de todo este processo e que aproveite para corrigir os erros cometidos no passado e que permitiram que Grécia chegasse onde chegou.

Todos sabemos que um bom acordo só é bom se for bom para ambas partes e este, não digo que seja perfeito para o Syriza, é por agora bom para a Grécia. À mesa do Conselho, Tsipras portou-se como líder do Syriza e os seus parceiros trataram-no como tal. Nem uma coisa nem outra são corretas ou adequadas, mas foi a consequência de alguns incidentes deste percurso de 5 meses. Há um sentimento preocupante que atravessa a maioria das comitivas europeias que participaram nas negociações que é a falta de confiança no governo grego pois este muda de opinião constantemente e inesperadamente (convém não esquecer as ameaças de aproximação de Tsipras a Putin). Esse mau ambiente prejudicou severamente as negociações e nem a mudança de Ministro das Finanças grego melhorou o clima. A maior dúvida dos pares europeus sempre foi sobre o real compromisso do governo grego em cumprir o que ficaria acordado.

Tsipras quis arrumar a Europa antes de arrumar a sua casa

Ao contrário de alguns oportunistas da oposição em Portugal, o Primeiro- Ministro grego disse esta manhã, com a lucidez que falta a muito boa gente da sua linha política, algo que é bastante revelador “Lutámos duramente lá fora, agora temos de lutar em casa contra os interesses instalados". Esta confissão revela que Tsipras inverteu prioridades políticas, optando por combater primeiro os “seus problemas estrangeiros” antes de começar por a arrumar a sua própria casa. Passos Coelho fez precisamente o contrário, começou por arrumar primeiro a casa e só depois a (re)negociar condições, o que permitiu a Portugal garantir progressivamente juros mais baixos, renegociar maturidades bem como a promover diversas mudanças nas regras europeias como é o exemplo da criação da União Bancária, já em funcionamento, e a proposta da reforma da regulação financeira a nível europeu.

A coragem que Tsipras teve para enfrentar o Conselho faltou-lhe para enfrentar os interesses instalados em Atenas, em afrontar os armadores gregos, em cortar no orçamento dos generais, em acabar com os privilégios fiscais, em combater a evasão fiscal e a corrupção, entre outros. Há claramente um Tsipras grego e outro europeu.

Culpados arrependidos?

Inicia-se agora também um importante consenso político alargado na Grécia para o cumprimento de um acordo de reformas estruturais (algo que em tempos devia ter inspirado o Partido Socialista em Portugal e que hoje possa servir de exemplo), pois os maiores partidos gregos, como a Nova Democracia e o PASOK, responsáveis pela grave situação em que colocaram a Grécia ao longo da última década e meia, e o POTAMI, tudo partidos pro europeus, já garantiram o seu apoio ao atual Governo, mesmo que de dentro da coligação do Syriza “saltem” os grupos mais radicais.

Portugal fez o oposto da Grécia

Termino salientando que as estratégias de Portugal e Grécia foram diferentes e os resultados claramente opostos. Portugal não teve segundo resgate enquanto a Grécia já vai no terceiro, Portugal já antecipou reembolsos à troika e a Grécia já falhou pagamentos, em Portugal a economia cresce acima da média europeia e o desemprego baixa todos os dias e na Grécia a economia praticamente parou e o desemprego não cessa de aumentar. Na Grécia as pessoas têm cada vez mais dificuldades enquanto os portugueses já notam que as dificuldades pelas quais passaram começam a surtir efeito e que efetivamente valeu a pena. Felizmente a Grécia parece agora finalmente no bom caminho.