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Grécia: jogo europeu de soma negativa...para todos

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A crise na Grécia não favorece ninguém mas é prejudicial, sobretudo, para os gregos. Nunca imaginei que chegássemos a este ponto, sempre acreditei num acordo na última semana. Enganei-me. Mas apesar do aparente abismo estamos agora mais perto da solução.

Estranho volte-face
Neste processo algo está por explicar: o volte-face após os sinais de acordo que todos recebemos: “Houve um recuo grego ou um recuo das instituições?”.

A questão que se coloca é simples: o governo grego recuou para evitar uma cisão do Syriza ou recuou perante o sim dos europeus e gregos ao acordo? Ficou, aos mais atentos, a sensação de que o Syriza preferiu não perder a face, confessar que tinha um programa eleitoral inverosímil, em vez de alcançar um acordo que garantia a estabilidade para o futuro próximo - apesar de seguir com alguma austeridade.

A verdade, traduzida nos dados da economia grega, é que esta estratégia do Syriza tem servido apenas para agravar o diagnóstico inicial. Recuou o PIB grego, aumentou o desemprego, degradaram-se as condições de vida. O ponto de partida atual é bem pior do que a situação vivida no dia das últimas eleições. Parêntesis: a responsabilidade na origem da crise grega não pode ser assacada apenas ao Syriza, mas à ND e ao PASOK, ao clientelismo, compadrio, evasão fiscal, falta de reformas estruturais, entre outros. Em Portugal a austeridade teve do outro lado reformas estruturais, que permitem hoje à economia crescer, enquanto na Grécia foi austeridade sobre austeridade, sem vontade de reformar o quer que seja. É uma grande diferença. As nossas reformas vão permitir aliviar alguma coisa nos próximos 4 anos.

Masoquismo do Syriza
Erro mais erro, errado dá”. Não se percebe a atitude do governo grego porque, quando tudo se encaminhava para um acordo equilibrado com propostas do próprio Syriza, voltou tudo à estaca zero. O referendo é, sem dúvida, uma fuga para a frente, irresponsável e populista.

Não há liberdade sem responsabilidade, não há direitos sem deveres, e não há democracia sem regras. Existem grandes diferenças entre democracia e populismo, apesar de ambas se basearem no respeito da vontade do povo. Socorro-me de um excelente texto do Daniel Oliveira aqui no Expresso, em Fevereiro de 2014  a propósito da democracia direta na Suiça: "Experimentem decidir tudo em referendos e assembleias populares e rapidamente verão surgir nas plateias centenas de candidatos a pequenos tiranos". Pois.

Governos europeus (de esquerda e de direita) unidos e a discordar da Grécia
Aproveito também para esclarecer que a posição Europeia não resulta de uma deriva da direita europeia contra o governo de extrema-esquerda grego. Recordo que no mesmo Conselho Europeu, onde se senta Juncker ou Merkel, está o Presidente do Eurogrupo (socialista holandês), o Primeiro-Ministro Italiano Renzi, o Presidente francês Hollande e outros tantos, todos eles socialistas mais discretos, de esquerda mas pragmáticos.

Por outro lado, convém recordar o óbvio: a democracia grega não tem mais legitimidade do que as restantes democracias europeias. Nem a legitimidade deste governo grego é superior à dos anteriores, que assinaram a entrada na zona euro ou que subscrevam diversos tratados. Como lembrava ontem Teresa de Sousa no “Público”: "Qualquer país da União Europeia sabe que o projecto europeu implicou e continua a implicar a partilha de alguns poderes nacionais ao nível europeu. É essa a sua essência” (...) "A Grécia exerce a sua democracia neste quadro de partilha de soberania que aceitou". É isto que o Syriza escondeu aos gregos ou nunca quis assumir.

É urgente haver bom senso
Ao assistir atentamente a todo este processo, só posso apelar ao bom senso, porque o jogo atual tem soma negativa - prejudica gregos e todo o projecto europeu. Só com altruísmo e humildade se conseguirá uma solução - isto aplica-se ao Syriza mas também às instituições credoras.

O consenso entre os Estados Membros resulta muito da confiança recíproca, razão e consequência das virtudes e defeitos da UE. Nunca se conseguiu nada em confrontação e os gregos já deveriam saber isso. Portugal e Irlanda ganharam com base na confiança mas também no cumprimento de acordos anteriormente alcançados. O anterior governo grego conseguiu um inimaginável perdão de 50% da dívida grega. O atual, com as suas estratégias de fazer "tremer os credores alemães", nem 1% de perdão de dívida conseguiu ainda obter.

UE não se adaptou à manipulação Syriziana
A UE não estava preparada para lidar com um novo estilo, com um governo que negociava na imprensa, na desinformação, que dizia uma coisa no Conselho e outra nas conferências de imprensa, que enviou uma proposta para os jornais e outra para a Comissão Europeia. A UE não estava preparada e não teve a humildade de o perceber a tempo. À Europa falta, por vezes, em pedagogia o que sobra em arrogância. Falta em sentimento o que sobra em realismo.

Acredito cada vez mais que, desde o início, a estratégia de Tsipras era clara: destruir o Euro, colocar em causa a União Europeia, para serem heróis da esquerda antieuropeia, à custa dos pobres gregos e dos restantes europeus. Se não era, agora parece.

Tese socialista faria de Portugal a Grécia
A terminar não posso deixar de registar o embaraço (recorrente) do PS. O Syriza passou de “excelente exemplo” a vítima do governo português, que é fraco e seguidista mas tem o poder de lançar os gregos no caos em que vivem.

O óbvio e talvez o mais importante: onde estaria Portugal se o Governo de coligação tivesse seguido as teses radicais do Partido Socialista? O PIB cresceria? O défice caía? O desemprego travava? O emprego acelerava? A balança comercial “bombava”? Sem os cofres cheios, que tanto António Costa criticou, que custos teria Portugal por ir agora aos mercados colocar a dívida a juros altos?