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Expresso

A Democracia tem regras e são iguais para todos, mesmo para os gregos

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As negociações entre o governo grego e os seus pares europeus estão à beira da rutura, estão no seu ponto de maior tensão mas, quem sabe, mais perto da solução final. Seria esta a mudança que alguns queriam para Portugal?

A última declaração do Primeiro-Ministro grego é uma espécie de ultimato à Europa ou a queda da máscara de alguém que, para ganhar as eleições gregas, se esqueceu dos compromissos e das regras da democracia. Ainda hoje me espantam as declarações políticas em Portugal sobre a vitória do Syriza, das quais se destacou a do actual líder do PS que então afirmou "a vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha". Era a actual situação grega que António Costa desejava para Portugal? 

Grécia sobreviveu graças aos empréstimos estrangeiros

Os países europeus, através do BCE, mas também o FMI, financiaram o resgate grego, a fim de evitar o incumprimento do governo com os seus funcionários públicos, com as suas responsabilidades sociais e com as diversas entidades bancárias que lhes emprestaram dinheiro ao longo dos últimos anos. Não são estas entidades que, nas palavras de Tsipras, pilharam a Grécia, mas sim os diversos governos que têm governado em Atenas que fugiram à realidade, esqueceram a sua responsabilidade e negaram, sucessivamente, a realidade do país aos seus cidadãos.

A Democracia tem regras e são iguais para todos, mesmo para os gregos

A Democracia tem regras e felizmente na Europa, tal como em todos os Estados Membros, vigora o Estado de direito. É inaceitável que o Governo grego afirme que as regras europeias violam a democracia, sobretudo quando a Grécia é um país fundamental da construção da própria democracia.  A actual governo grego prometeu aos seus concidadãos que tinha uma solução para o problema grego, mas ocultou que a estratégia que tinha delineado não se coadunava com as regras europeias em vigor, iguais para todos os países, nem com as responsabilidades assumidas pelos diversos governos gregos eleitos democraticamente pelos mesmos cidadãos que elegeram Tsipras e companhia. Foi a mesma democracia.

Meias-verdades na Grécia e em Lisboa

Varoufakis veio hoje dizer que não quer mais dinheiro, mas não confessa que não quer pagar a dívida grega - é a chamada meia-verdade que em política ajuda a confundir as pessoas. Faz-me lembrar o ex presidente da Câmara de Lisboa que se regozijou pelo corte da dívida da Câmara, mas que se esquece de dizer que transferiu encargos de funcionários para as freguesias (despesa) e que recebeu 269 milhões de euros do Governo liderado por Passos Coelho, por via da cedência dos terrenos do aeroporto de Lisboa. 

A estratégia de Tsipras e Varoufakis foi sempre não pagar e conseguir um novo perdão da dívida grega (recordo que já tiveram um perdão de 50%). Simularam negociações que nunca quiseram concluir. Contaram, no início, com a boa vontade do actual Presidente da Comissão Europeia que entretanto também já se assumiu enganado. Ao que parece a União Europeia, que não é só a Alemanha, já deu vários passos atrás para poder acolher diversas reivindicações gregas, mas o equivalente por parte de Tsipras ainda não aconteceu. 

Governo grego não quer acordo algum

O problema do Governo grego é não ter coragem de assumir que enganou as pessoas que, desesperadas com a incapacidade dos governos anteriores, acreditaram no conto de fadas de Tsipras. Já aqui escrevi que, desde o início, era necessário haver cedências de parte a parte. A UE teria, realisticamente, de acomodar algumas promessas do Syriza e o Governo grego teria que respeitar os compromissos e responsabilidades que negou em campanha. A UE já revelou maturidade e responsabilidade política recuando até onde era possível. O Syriza e a dupla Tsipras-Varoufakis continuam teimosamente na linha de partida da campanha eleitoral grega ou a preparar o caminho para eleições antecipadas.

Se no início Tsipras revelou moderação face ao rotweiler Varoufakis, hoje está refém da facção mais extremista do seu partido, controlada pelo Eurodeputado Manolis Glezos, mas que coloca em causa a união e estabilidade do grupo parlamentar que o apoia no Parlamento helénico. No fundo, Tsipras tem medo do próprio Syriza.

Pares europeus perdem confiança no governo grego

Os actuais governantes gregos já perderam a confiança dos seus pares europeus, já gravaram à "socapa" reuniões do Conselho, já apresentaram em Bruxelas propostas diferentes das anunciadas no parlamento grego, já enxovalharam as regras e os princípios da UE e faltaram ao cumprimento de acordos feitos no Eurofin por dirigentes gregos democraticamente eleitos. Não estão de boa-fé nas negociações. Parece-me que desde o início queriam apenas provocar a saída da Grécia do Euro, sem nunca terem a coragem de o assumir publicamente.

A saída da Grécia do Euro pode criar uma grande instabilidade na zona euro, pode causar um problema gravíssimo na economia grega. Mas a própria força e o rigor da UE não podem ser postos em causa pela irresponsabilidade dos eleitos gregos - é um grave dilema que a UE terá que resolver sabendo que, com ou sem Grexit, a Europa tanto pode sair mais unida como mais ferida. Este é um dilema que colocará à prova a saúde política, económica e democrática da União Europeia, como projecto de paz, de solidariedade e de prosperidade.