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Expresso

António Costa: 6 meses, 4 versões de programa. Portugal não é o “tubo de ensaio” do PS

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Em meio ano, eis o que aprendemos sobre a liderança de António Costa. Primeiro, não queria fazer promessas porque um político não deve confundir o eleitor; depois começou por fazer promessas porque um líder político tem de mostrar ao eleitor ao que vem e deixar claras algumas fronteiras que não está disposto a passar. Nesse segundo momento, o Secretário-geral do PS lançou algumas ideias que, entretanto, deixou cair na esperança de que ninguém iria  reparar (o aumento do salário mínimo nacional talvez seja um bom exemplo, mas é só um, poderia dar muitos mais). Em alguns casos, António Costa recuou, noutros suavizou o discurso. Será que o PS se esquece de que primeiro criticou violentamente o Governo por ventilar uma possível descida da TSU, depois propôs uma irresponsável descida da TSU para as empresas e trabalhadores colocando em risco o futuro da Segurança Social e, já neste último documento, recuou novamente nesta proposta? É este o líder com a convicção e a segurança de que o País precisa para o próximo ciclo político? (Imaginem o que seria de Portugal se tivesse sido este o registo do Primeiro-Ministro ao longo dos últimos quatro anos). O relógio não para e depois de ter perdido os anos que perdeu com José Sócrates e António Costa no governo, Portugal não se pode dar ao "luxo" de desperdiçar os esforços e os resultados alcançados nos últimos quatro anos. É um país desenvolvido, com uma sociedade mais coesa e uma economia sustentável que estão em causa. É para aí que temos de caminhar, a solução não é voltar para trás nem adotar a receita que nos levou à pré-bancarrota.

                                                                                                                                           

À quarta será de vez? 

A liderança de António Costa tem pouco mais de meio ano e já vai no quarto documento de preparação do respetivo programa de governo. Primeiro, em novembro de 2014, apresentou a Agenda para a Década; em janeiro de 2015, em resposta às críticas externas e às pressões internas, lançou o 1º capítulo do Programa de Governo do PS com 51 ideias temáticas (muitas delas réplicas de medidas executadas por este Governo); adiante, António Costa abandonou a ideia de apresentar o Programa de Governo por capítulos, abandonando também o argumento de que, assim, com essa estratégia, a sociedade poderia conhecer pouco a pouco as propostas socialistas e discuti-las. Sem uma estratégia definida e coerente, os socialistas apresentaram em abril, uma Década para Portugal. Ao terceiro documento, apresentaram algumas ideias concretas do que seria um executivo liderado por António Costa.

PS orgulha-se do estado do país que entregou à Troika

Todos os sinais que António Costa nos tem dado deixam-nos dúvidas sobre os passos a dar para a frente porque nos permitem antever aqueles que poderemos dar para trás. Considerando apenas as propostas originais o PS apresenta inúmeras incertezas e contradições e apenas uma única grande certeza: o regresso à aposta na promoção do crescimento com base no consumo interno. E nós enquanto País, infelizmente, já sabemos bem ao que leva a aposta num crescimento apenas assente no consumo interno, que gera dívida, desequilíbrios externos, mais impostos. Portanto, é um crescimento que nunca será sustentável. Ou seja, um regresso às políticas de Sócrates. Um programa que comprometeria tudo aquilo que os Portugueses conseguiram com muito esforço nos últimos quatro anos. Um documento a partir do qual facilmente se conclui que este PS não aprendeu nada com os erros do passado. Se dúvidas houvesse sobre essa opção, Ferro Rodrigues teria acabado com elas quando, na semana passada, afirmou que o PS continua a defender as mesmas ideias de há quatro anos. O PS orgulha-se, portanto, do País que entregou à Troika em Maio de 2011. Não há, no discurso socialista, qualquer sinal de arrependimento por opções passadas, erros cometidos. Não aprenderam nada com a crise.

A receita da bancarrota não nos traz crescimento

Jamais a estratégia que nos levou à bancarrota poderá ser a solução para o crescimento. Aumentar o consumo interno através da injeção de dinheiro público é criar um crescimento artificial que se esgota a curto prazo. Em sentido figurado, seria como voltar a colocar o Banco de Portugal a emitir moeda de forma desenfreada, inundando a economia e aplaudindo levianamente o crescimento imediato do consumo…o trambolhão chegaria dias depois. É a estratégia da “Festa da Parque Escolar”. Não há lugar para um crescimento real, sustentado e resultado do aumento da competitividade das empresas. Esta estratégia do PS só funcionaria se cortássemos ainda mais no Estado Social, nas funções do Estado, para poupar ainda mais na despesa ou então aumentando os impostos. Apostar novamente na construção civil, o alfa e ómega de qualquer estratégia socialista, é voltar ao tempo que nos levou à bancarrota. Depois de quatro anos de sacrifícios, penso que os portugueses já não vêem apenas luzes ao fundo do túnel, os portugueses já estão na saída do túnel e não arriscam voltar para trás.

Cata-vento político  

O que me preocupa no meio de tudo isto é a falta de norte e convicção nas propostas que o PS apresenta. Num verdadeiro ziguezague político, o maior partido da oposição faz experimentalismo político com o seu programa a meses das eleições. N ão podia haver maior contraste entre a estratégia da coligação para os próximos 4 anos e a atitude do PS. Curiosamente a Coligação PSD/CDS defende com mais convicção aquilo que foram compromissos do PS do que o próprio PS, como as medidas do memorando, ou o acordo sobre o IRC ou a política de privatizações acordada pelo PS com a troika. Ou seja, por puro tacticismo político, este PS é mais oposição a si próprio do que ao Governo PSD/CDS. Fica claro que o combate eleitoral do PS nestas eleições é furar à esquerda: entre o PS e Marinho Pinto, entre o PS e o Livre e entre o PS e o Bloco de Esquerda.

Havia boas propostas do grupo de economistas 

A terminar não podia deixar de lamentar que duas das melhores propostas que o “grupo dos economistas” tinha apresentado foram precisamente as primeiras a “cair” e que, como habitualmente, não mereceram a justa reflexão e debate - o contrato único de trabalho e o financiamento das Universidades em função do IRS dos ex-alunos, uma experiência em tempos proposta pela JSD (apesar de em moldes diferentes) e agora quase recuperada pelo PS.

PS faz oposição a si próprio, ao Bloco e ao "Democrata" Marinho

Em tudo isto há, desde já, algo de muito positivo, pois a futura campanha eleitoral terá duas propostas bastante claras e diferenciadoras em discussão e sobre elas os portugueses farão uma opção esclarecida sobre o futuro que querem para si e para o seu país.

P.S. 1 - O título desta crónica não é uma tentativa de piada ao Bruno Nogueira ou ao João Quadros, nem mesmo à TSF, os humoristas são eles e isto é apenas uma feliz mas oportuna coincidência.

P.S.2 – Aproveito para felicitar o “Rali de Portugal”, os organizadores, do ACP às autarquias, os patrocinadores, as equipas concorrentes mas sobretudo o público que teve um comportamento fantástico, bem melhor do que alguns, repito alguns, adeptos do futebol que mancham a nossa imagem.