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Expresso

Cavaco e a Geração que se desenrasca

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Belém voltou a colocar, ou a tentar colocar, o problema dos jovens no centro do debate político. Muitos fazem orelhas moucas, outros preferem enfiar a cabeça na areia e  criticar o Presidente da República. Imune a tudo isso, Cavaco volta a "mandar" ouvir os jovens, fazer um novo estudo sobre os diferentes temas e a discutir com os próprios as conclusões. Por mais que isso irrite a esquerda, este Presidente teve sempre os problemas da juventude no topo da sua agenda política. É o que se chama usar os meios ao seu alcance para colocar, com rigor, na agenda um tema que nos deve preocupar todos.

Uma das principais conclusões deste estudo é o alheamento dos jovens da sociedade que os rodeia. Desde 2007 (data do estudo de Pedro Magalhães) perdemos mais de metade dos jovens envolvidos em atividades de cidadania. Em 7 anos temos uma geração totalmente alheada da condição política de um cidadão.

Há perguntas obrigatórias: Que futuro para a democracia e para a sociedade que temos? Que futuro para os próprios jovens?Como será uma geração ausente de qualquer identidade ou ideologia? Como será uma sociedade feita sem convicções apenas dependente de interesses conjunturais corporativos e/ou individuais Qual será o resulta de um conjunto que não é mais do que a soma maioritária de partes de partes? De quem é a culpa? Será inevitável termos uma democracia assente em bases diferentes?

Apesar de tudo, jovens confiam mais na Democracia

Apesar de aumentar a percentagem de jovens que confiam na democracia, o que me preocupa de verdade não é a falta de confiança que os jovens têm na política ou nos partidos, isso é um problema mas essa responsabilidade passa também por nós, dirigentes partidários. O que me preocupa mesmo é a falta de participação na generalidade de atividades de cidadania, no associativismo ou em movimentos.É uma geração que tem outras prioridades e motivações. Na verdade, a vontade e responsabilidade de "participar" acontece mais tarde, mas os dados de participação desta geração são mais baixos do que o normal. Talvez a participação esteja diferente, mas contenta-me no entanto a crescente taxa de envolvimento de jovens noutro tipo de movimento associativo como ONGDs ou programas de voluntariado.

Desemprego jovem preocupa menos que a participação

Quanto ao desemprego, ficamos com a ideia que há uma evolução constante das oportunidades de emprego, com o emprego jovem a baixar, em particular entre os jovens adultos (25-34) onde chega aos 15,5%, bem próximo do valor geral. A verdade é que o desemprego jovem tem vindo a baixar de forma sistemática. O Impulso / Garantia Jovem, não sendo um programa perfeito, deu resposta a um número muito significativo de jovens portugueses. Tem tido bons resultados.

Daqui verifica-se que o maior problema do desemprego é a entrada no mercado de trabalho, sobretudo porque não houve criação líquida de empregos suficiente. Tem sido muito difícil para as novas gerações entrar nas empresas e o programa de estágios veio permitir "furar", foram uma espécie de janela aberta para entrar em empresas cujas portas estavam fechadas. De notar também a maior predisposição para a criação do próprio emprego.

Geração nem-nem

Mais preocupante são os jovens que não estudam, que não trabalham nem têm qualquer outra oportunidade. Numa altura em que por esse mundo fora vemos tantos jovens a aderir a fenómenos extremistas, devemos considerar isso mesmo como um alerta, um alerta para uma geração. Também na Europa este é um dos debates do momento e Portugal não pode ficar fora desta questão.

O falso problema da "mobilidade"

Uma palavra final para as questões da mobilidade e da emigração. É indiscutível que muitos jovens qualificados têm emigrado, também pela falta de oportunidades que Portugal ofereceu durante a crise. Mas não nos podemos esquecer que nos últimos 20 anos estimulamos a mobilidade juvenil, dissemos aos mais jovens que a mobilidade europeia era a oportunidade. Quase todos os programas europeus dirigidos à juventude têm como pilar comum a mobilidade. Falamos do "rei" desses programas o Erasmus, mas também o Leonardo Da Vinci, o Eures, o Copérnico etc.10% por cento jovens disseram neste estudo que já tinham uma experiência noutro país da UE, um valor impressionante.

O nosso objetivo não deve ser impedir que os jovens emigrem para estudar ou trabalhar, mas sim criar condições para que os saíram possam voltar e que os cá estão tenham oportunidades de emprego e de satisfazer as suas ambições no seu país. Devemos também aguardar com expectativa o impacto positivo no país, e na economia, mas sobretudo nas mentalidades, da experiência e conhecimento que os jovens que regressam vão causar em Portugal.