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Queda do Governo: José Sócrates é um rato político

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1.Confirmou-se o cenário de demissão do Governo perante a não viabilização das medidas do PEC pelo Parlamento. José Sócrates - finalmente - cumpriu uma promessa ao pedir a demissão a Cavaco Silva. O país, em plena crise económica e financeira, está entregue ao jogo político-partidário. Culpa de um Governo inexistente que puxou a corda ao máximo e da falta de coragem do maior partido da oposição que já poderia ter forçado a clarificação. Ao contrário do que refere a maioria dos analistas políticos, creio que este timing para a realização de eleições antecipadas é mais favorável para o PS do que para o PSD. Por conseguinte, José Sócrates foi inteligente na escolha do momento para desencadear a crise. Passamos a explicar porquê.

1.1. Em primeiro lugar, porque o Governo sentiu que a sua queda seria inevitável. A discussão política em Portugal, desde o início do ano, esgotava-se em saber qual seria o dia em que o Governo cairia. Chegou-se a um ponto insustentável. Para José Sócrates era muito simples: ou demitir-se agora ou aguentar-se até ao orçamento de Estado, uma vez que era clarinho como a água que o PSD de Passsos Coelho (independentemente do conteúdo do orçamento de Estado para o próximo ano) não iria esperar mais para (tentar) chegar ao poder. Analisando os prós e os contras, José Sócrates tomou a decisão mais inteligente na sua perspetiva: demitir-se agora permite-lhe adotar o discurso da vitimização (que aliás o primeiro-ministro demissionário aproveitou bem no discurso de justificação da demissão), encostar o PSD à parede - e ainda sonhar com uma vitória ou um resultado honroso. Porquê? Primeiro, porque as sondagens mostram que o PS resiste e o PSD não descola; segundo, porque ainda não sofreu o desgaste das novas medidas de austeridade. Note-se: se José Sócrates esperasse pelo orçamento de Estado, o PS teria de aguentar as consequências eleitorais da apresentação do novo PEC, da aplicação das medidas de austeridades que já estão em vigor, mas que os portugueses só agora começam a sentir forte e feio no bolso - para além do conteúdo da proposta de Orçamento de Estado para o próximo não que, neste momento, ninguém pode arriscar como será. José Sócrates, ao demitir-se, tenta passar a sua última prova de resistência política.

1.2. Em segundo lugar, José Sócrates tirou o tapete ao PSD. Quer dizer: Passos Coelho jogava o tudo por tudo na manutenção do governo até ao orçamento de Estado. Era esse o timing do PSD - daí que a calendarização das iniciativas do partido se concentrassem particularmente no início do Verão e até Catroga trabalhava arduamente para ter o programa do partido concluído em Julho. Como vimos na moção de censura apresentada pelo BE, o PSD só se começou a preparar para ser governo no início deste ano (e muito devagarinho). Ora, José Sócrates negou a possibilidade (ou o privilégio) ao PSD de escolher o momento para precipitar a queda do governo. Daí que, na minha opinião, José Sócrates objetivamente quis provocar o PSD ao não negociar o PEC, impondo-o ao maior partido da oposição como um fato consumado. Estucou a corda até romper. Não sejamos ingénuos: José Sócrates quis provocar eleições por um motivo simples e claro de estratégia política. Não foi uma mera questão de feitio ou uma questão de procedimentos ou processos democráticos, como defendem Marcelo Rebelo de Sousa ou Ricardo Costa. Grande desafio para o PSD: mostrar que a realização de eleições é a solução mais adequada para Portugal, apesar da crise financeira (é ver a imprensa internacional que já dá como certa o pedido de ajuda externa face ao clima de instabilidade política). O PS vai fazer a tática habitual: fazer queixinhas do PSD na cimeira europeia, mostrar que tem o apoio de Angela Merkel e de Durão Barroso (e do PPE, a que o PSD pertence) - e criar uma divisão entre os que se preocupam com Portugal (Governo PS) contra os mercados e aqueles que só pensam em poder e no interesse partidário. Desenvolveremos as estratégias dos partidos nos próximos textos aqui no POLITICOESFERA.

1.3. Por último, José Sócrates pretende reforçar a sua posição perante o Presidente Cavaco Silva. O discurso de tomada de posse de Cavaco Silva foi encarado como uma declaração de guerra pelo PS (no meu entendimento, foi uma burrice do PS). O Governo - mais uma prova do tal esticar da corda - nem sequer apresentou o PEC ao Presidente da República. José Sócrates percebeu, assim, que seria sempre o elo mais fraco da política nacional - teria uma oposição no parlamento a quem teria de prestar contas sistematicamente, que acabaria por derrubá-lo; para além de um Presidente, relegitmado pelo voto popular, que não perderia uma oportunidade para bater sem contemplações no executivo. José Sócrates força, assim, uma clarificação (até) institucional. Qual será o pensamento de Cavaco Silva? Agrada-lhe o cenário de eleições antecipadas? Creio que não será o cenário que preferiria em abstrato: se pudesse, Cavaco convidaria os três partidos (PS, PSD e CDS) para formar novo executivo, sem eleições, convidando o PS a retirar-se airosamente da liderança do executivo. Não sendo possível, a opinião de Cavaco foi ontem muito bem retratada no discurso de Manuela Ferreira Leite no Parlamento: o PEC é mau, o país caiu no descrédito por causa deste Governo - logo, com pena, a realização de eleições é o único cenário viável.

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