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Quantos Albertos Jardins existem por este país fora, caro Presidente Cavaco Silva?

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1. Decerto, não sabe a resposta para esta questão, senhor presidente facebookiano. A ocultação da dívida por parte do governo regional da Madeira gerou uma onda de indignação e contestação, ao mesmo tempo, compreensível e curiosa. Compreensível, porque como já escrevemos a situação da Madeira é censurável e lamentável: trata-se de uma ilegalidade (veremos se o Ministério Público recolhe indícios para concluir se deve ser objecto de censura criminal) que deve ser reparada e punida devidamente. Contudo, a reacção dos responsáveis políticos é muito curiosa - converteram Alberto João Jardim no bode expiatório de todos os problemas nacionais.Mais: Alberto João tornou-se o rosto da desresponsabilização colectiva dos nossos políticos. Alguém acredita que a prática de esconder dívidas ocorre apenas na Madeira? Todos condenam Alberto João (e eu sou o primeiro a fazê-lo), mas a verdade é que hoje muitos dos que o criticam andaram com ele ao colo, virando a cara às suas práticas duvidosas. E hoje só o criticam porque é politicamente correcto fazê-lo: se Alberto Joã, no domingo, conquistar a maioria absoluta, voltar a ter peso político, o FMI esquecer-se ou adiar o assunto para outra altura, os mesmos que hoje o crucificam vão lamber-lhe as botas no dia seguinte. É a lei da miséria do poder na sua máxima expressão. Basta pensar em Miguel Relvas: esteve ni governo de Durrão Barroso e nunca teve uma palavra para censurar as excentricidades de Alberto João Jardim. Nem um reparozinho. E o que dizer de Feliciano Barreiras Duarte? Ou de Marco António Costa? Ou de Pedro Santana Lopes (escolhido por Passos para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa)? Ou de Miguel Macedo, secretário-geral na liderança de Marques Mendes? Ou até mesmo Paulo Portas, ministro da Administração Interna de Barroso e decano dos líderes partidários? Ou mesmo de António José Seguro, influente guterrista?

2.Posto isto, se a omissão da dívida da Madeira é deveras grave, quer no plano financeiro, quer no plano da reputação internacional do país, não se pense que é uma prática isolada ou que todos os nossos governantes são muito certinhos - e só Alberto João é o diabo financeiro lá do sítio. Com efeito, convém recordar que, ao nível administração central (ou seja, do governo), há muitos anos que se pratica a chamada desorçamentação. Em que consiste? Justamente, no adiamento ou na não inclusão no Orçamento Geral do Estado (programa financeiro por excelência) de despesas para não agravar (ou, noutra linguagem, para "esconder", como preferirem) o défice do Estado. Normalmente, a desorçamentação é usada para esconder despesas relacionados com as parcerias público-privadas ou com o sector empresarial do Estado. Pergunto: qual a diferença, para o nosso juízo de valor, entre a prática corrente dos últimos governos e a prática do governo regional da Madeira? Para mim, merecem exactamente a mesma censura e a mesma veemente condenação. Há muitos Albertos Jardins por aí, a começar no governo (não em particular neste, mas em todos). E ao nível da administração autárquica? Não haverá outros buracos? Consegue Passos Coelho garantir que não - e que os nossos impostos não servirão para alimentar jogos políticos irresponsáveis? Espero que Alberto João Jardim não se torne o rosto da desresponsabilização política - ele seja censurado politicamente, mas as suas práticas continuam a ser seguidas. A começar no governo. Talvez a diferença de Alberto João Jardim consista, como alguém já escreveu, em não usar o fato Armani - torna-o mais vulnerável e no bobo da festa nacional....Repito: a questão não é Alberto João: é a sua forma de fazer política. O que é importante é condenar os Albertos Jardins encartados que por aí andam....

3. E Cavaco Silva, o que tem a dizer? Aparentemente, nada ou muito pouco. Apenas que o país conseguirá ultrapassar os sacrifícios que se impõem e que estes são poucos de união - e não de divisão. Pois bem, este é o mesmo presidente que parou o páis, em pleno Verão de 2007, para fazer uma comunicação ao país sobre as inconstitucionalidades do Estatuto Político-Administrativo dos Açores! Que é um tema que interesse imenso aos portugueses, como se deve calcular...Mas compreende-se: Cavaco Silva não é virgem político na matéria. Ele foi primeiro-ministro durante largoi anos, com maioria absoluta...e nunca soube lidar com Alberto João Jardim! E foi-lhe dando cobertura... Donde, percebe-se que também não seja um tema muito cómodo para Cavaco. Prefere não falar, como já é habitual neste Presidente. Estejam atentos ao Facebook: pode ser que aí, através desta rede social, Cavaco Silva se lembre de dizer algo de relevante. Definitivamente, o cognome deste Presidente será: o Facebookiano

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