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João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

Paulo Portas: o novo líder do PSD?

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O Governo Passos Coelho comemorou um ano. Para assinalar o efeito, Paulo Portas e Passos Coelho realizaram uma declaração conjunta, após uma reunião alargada dos membros do Governo no Palácio da Ajuda. No geral, Paulo Portas melhor do que Passos Coelho - o que apenas comprova a enorme habilidade política do líder do CDS e a tibieza do líder do PSD e Primeiro-Ministro, Passos Coelho. Vejamos porquê:

a) Quanto à forma, surgiram os dois líderes partidários sem gravata - o que significa que concordaram em retirar a pressão solene da declaração e da própria reunião. Pretende-se transmitir a ideia de que a reunião serviu primacialmente para reforçar a coesão entre os membros governativos e não como acto solene, de definição de medidas ou das próximas grandes linhas de acção política do Governo. Por outro lado, o não uso da gravata é cada vez mais aconselhado, em certas ocasiões, pelos consultores de imagem e opinião políticos (os spinners), pois deixa os portugueses com a sensação de que os membros do Governo deitaram "mãos à obra", estão no terreno a trabalhar; e, por outro lado, permite uma identificação mais imediata e próxima entre os membros do Governo e os portugueses (ou, numa linguagem mais clássica, entre governantes e governados). Em termos de imagem política, uma outra curiosidade que a televisão permite realçar: Passos Coelho surgiu com uma camisa tradicional, branca, mais apagada; Paulo Portas apareceu com uma camisa mais exuberante, azul, televisivamente mais viva. Ou seja, em termos de imagem política, Passos Coelho apareceu como o conservador, mais morto; Paulo Portas, como o político moderno, mais dinâmico, mais jovem, mais irreverente.

b) Uma nota adicional sobre a forma do discurso: Paulo Portas discursou primeiro, terminando o seu discurso precisamente poucos minutos antes do início do jogo que opôs a Itália contra a Inglaterra, a contar para o Euro 2012. Já Passos Coelho falou aos portugueses rigorosamente enquanto decorria o jogo, coincidindo praticamente o início do seu discurso ao pontapé de saída do jogo de futebol. Ora, para quem ainda deseje ser naif ao ponto de considerar que Paulo Portas fez isto casualmente, sem intenção nenhuma, estes dados são irrelevantes. Sucede, porém, que Paulo Portas é um animal político, que domina como ninguém a comunicação política de massas, os tempos televisivos e jornalísticos - e percebeu que só tinha a ganhar se falasse primeiro. E impôs ao Primeiro-Ministro que iniciasse a conferência, ficando Passos Coelho incumbido de a encerrar. Conclusão: muitos portugueses ouviram Paulo Portas e desprezaram magistralmente Passos Coelho. Estranho é como Passos Coelho, líder do PSD, maior partido do Governo, permite que Paulo Portas, líder do partido que vale 10% dos votos, lhe enfie tamanho barrete...

c) Na forma de estruturação do discurso, julgo que Passos Coelho voltou a ser novamente demasiado escuro, demasiado lúgubre, num estilo excessivamente racional (direi pessimista?); enquanto Paulo Portas puxou pelos galões do patriotismo, num discurso mais motivacional, mais emocional. Numa frase: Passos Coelho aborrece; Paulo Portas (quase) convence.

d) Quanto ao conteúdo, quer Passos Coelho, quer Paulo Portas aproveitaram para enaltecer as medidas emblemáticas do Governo. Registou-se ou depreende-se alguma novidade no discurso de algum deles? Não. Contudo, há uma diferença significativa na abordagem que ambos fizeram à realidade portuguesa: o discurso social. Paulo Portas acolheu a necessidade de reiterar constantemente no discurso político os sacrifícios dos portugueses, apelando ao lado solidário de todos nós: os portugueses, esmagados pelas medidas de austeridade do Governo, são os verdadeiros Heróis de Portugal. Passos Coelho ignorou este aspecto social, pertencendo-lhe a frase mais infeliz da noite: "não há forma de ultrapassar a crise sem sofrimento social". Esta frase é de um mau gosto tremendo! Parece que os portugueses são o fardo - e as medidas pensadas pelos tecnocratas ultra-liberais amigos de Passos Coelho são a salvação da Humanidade! Os portugueses podem morrer - as medidas económicas da malta de Passos Coelho é que têm de vigorar a todo o custo! Dá a sensação que Passos Coelho vive noutro mundo! Noutra galáxia: parece que ficou perdido, a cirandar, na galáxia de Angela Merkel, de Sarkozy, dos tecnocratas mais radicais do FMI...mas não vive em Portugal! Pelo menos, não vive no nosso Portugal: quanto muito viverá no Portugal facilitado de José Luís Arnaut, de Miguel Relvas (que é ministro, empresário, relações públicas, ameaçador profissional de jornalistas, tudo!), de António Mexia...Devo afirmar que o que me choca mais é perceber que Paulo Portas se afirma como o líder do PSD, representante de uma linha social-cristã, própria da matriz fundacional do partido - enquanto Passos Coelho se assume como representante de um partido mais à direita economicamente do que o próprio CDS! Passos Coelho aprendeu na empresa de Ângelo Correia, onde trabalhou a vida toda, a só pensar em números em vez de pensar nas pessoas e nos problemas concretos dos portugueses! Tornou-se no político socialmente insensível que é hoje. Além disso, Paulo Portas falou no país que pretende para depois da crise, incorporando a dimensão de futuro no seu discurso; Passo Coelho limitou-se a exaltar os elogios internacionais (leia-se, da senhora Merkel) à política governativa.

Notas: Passos Coelho - 9

Paulo Portas - 12

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