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Passos: lixa-te para as eleições, mas não lixes os portugueses!

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João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1. A tirada de Passos Coelho, proferida na segunda-feira aos deputados do PSD, causou uma reacção, porventura, excessiva. Recorde-se que Passos Coelho afirmou que se está a lixar para as eleições, pois a situação de Portugal é muito mais relevante. Se o PSD perder as eleições, mas Portugal consolidar as suas finanças públicas, Passos Coelho ficará feliz. Será que estas declarações representam uma "ruptura civilizacional", a primeira frase patriótica de um Primeiro-Ministro desde o 25 de Abril, como referiram alguns comentadores da direita? Ou foram, como defendeu Daniel Oliveira aqui no EXPRESSO, uma hipocrisia política e uma desconsideração para com a democracia? Vamos por partes.

 As verdadeiras palavras de Passos Coelho

2. Em primeiro lugar, Passos Coelho está visivelmente cansado. Não é pelos quilos que visivelmente perdeu, como foi noticiado por um tablóide português, mas pela forma como Passos Coelho discursa: mais lento, mais pausadamente, mais receoso quanto às suas palavras. Há um desgaste físico (e anímico!) do Primeiro-Ministro visível, reflectindo-se, assim, na pessoa de Passos Coelho, as fraquezas e os casos mal esclarecidos do seu Governo, nomeadamente, as "trafulhices" e casos muito mal esclarecidos de Miguel Relvas. Além disso, chamamos a atenção para um pormenor interessante e bastante ilustrativo de um certo desespero de Passos Coelho: o nosso PM é muito racional, cerebral, equilibrado, nada emotivo. Nos discursos desta semana, foi o contrário: Passos Coelho, pela primeira vez, falou mais com o coração do que com a razão. Para já, pelo vocabulário utilizado: Passos Coelho costuma ser muito cuidadoso com o seu discurso e as palavras utilizadas; desta vez, Passos Coelho optou pelo verbo popular "lixar". O que confirma que Passos Coelho optou por um discurso mais emocional do que racional. Aquela frase - "estou a lixar-me para as eleições" - mostra que Passos está irado, farto de algumas atitudes do seu partido e de membros do seu Governo, que teima em não remodelar.

3. Por outro lado, ainda quanto à forma, Passos pretende dar a ideia de que não há uma distinção entre "nós"(o povo) e "eles" (os governantes): ao dizer que se "está a lixar para as eleições", Passos Coelho quer dar a ideia de que também é um homem do povo, que se irrita, que fala sem discursos metodicamente preparados - é um de nós.

4. Posto isto, lamento desiludir a imensa multidão que se apaixonou pelas declarações de Passos Coelho, mas há que afirmar, sem rodeios, a verdade: é que esta declaração tem um inequívoco significado político. Qual é ele? Fácil: desresponsabilizar-se ou atenuar a responsabilidade política de Passos Coelho, em caso de derrota do PSD, nas autárquicas ou nas europeias. Mais: a mensagem de Passos Coelho, para além dos deputados do PSD, teve, ainda, outro destinatário - o Partido Socialista. Efectivamente, Passos Coelho pretendeu já evitar qualquer leitura nacional das autárquicas ou das europeias - a legitimidade do Governo não ficará afectada por eventuais derrotas eleitorais.

5. Ademais, Passos Coelho conseguiu, ainda, alcançar um outro efeito que pretendia: desviar a atenção mediática das eleições que se aproximam. A um ano de distância, Passos Coelho quer adiar o mais possível (até para evitar divergências internas, num momento em que exige um partido unido no apoio ao Governo) a discussão sobre candidatos e evitar que se crie (e intensifique!) a ideia de que os próximos actos eleitorais serão testes ao seu Governo.

5.1. Ora, estes foram os únicos efeitos políticos relevantes das declarações de Passos Coelho: o resto foi puro exagero e imaginação criativa de alguns comentadores. Portugal mudou porque Passos Coelho pediu aos seus companheiros para se lixarem para as eleições? Esta é uma frase que todos subscrevemos, mas sem conteúdo político útil. José Sócrates dizia o mesmo; Durão Barroso (o nosso Zé Manuel da Europa) afirmava o mesmo; Guterres e Cavaco bradavam aos céus que só Portugal interessava. Resultado: Portugal esteve à beira da bancarrota, tendo de pedir o auxílio financeiro do FMI e das instâncias europeias.

5.2. De facto, Passos Coelho já deveria saber que o patriotismo e o sentido de Estado não decorrem só de palavras, nem de discursos: decorrem de actos concretos, de medidas justas e equitativas entre os portugueses. Até agora, o Governo Passos Coelho tem sido a negação de um executivo preocupado com as dificuldades dos portugueses. Bem pode Passos Coelho dizer que se está a lixar para as eleições - no minuto a seguir, Marco António Costa já lhe está a ligar para o relembrar que lhe prometera a Presidência da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

6.A verdade é que Passos Coelho, querendo lixar-se para as eleições, tem lixado, como nunca, os portugueses - sobretudo, os mais jovens. Voltaremos a esta temática amanhã.

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