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Passos Coelho está ferido de morte (graças ao Sôr Álvaro!)

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João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1. No meu último texto, escrevi que Passos Coelho fez um discurso para esquecer no Pontal, tendo cometido um erro político grave: anunciar que em 2013 Portugal não registará uma recessão económica. Julgava eu que Passos estava a dar o argumento decisivo para o PS encostar o Governo à parede no próximo ano, caso o cenário macroeconómico não seja tão abonatório quanto o Governo espera. Bom, sabia que o PS não iria perder a oportunidade de criticar o Governo, mas iria guardar este trunfo para momento posterior. Ora, afinal, Passos Coelho já percebeu a dimensão do seu erro: ontem, na SIC Notícias, foi corrigido por um economista que fez deixou implícito que efectuar qualquer previsão económica para o próximo ano é irresponsável, pois ninguém conhece todas as variáveis - e a nossa situação é particularmente difícil. Bastaram dois dias para Passos Coelho ser desmentido. E por quem? Por um economista do PS? Do Bloco de Esquerda? Ou um independente desalinhado? Não: Passos Coelho foi desmentido pelo seu...Ministro da Economia! Ou seja, um ministro, que deve solidariedade e responde politicamente perante o Primeiro-ministro, desmente o Chefe do Governo que integra...Conclusão: Passos Coelho (como eu escrevi) mentiu aos portugueses, porque hoje temos a certeza (obrigado sôr Álvaro!) de que o Governo não dispõe de nenhuma informação ou dados que permitam afirmar que o próximo ano não será um ano de recessão. Esta é a conclusão eu importa reter e que mais releva para os portugueses.

2. Isto dito, que consequências políticas este episódio provocou? Na minha óptica, avultam três consequências políticas: duas quanto à posição do Primeiro-ministro; uma quanto ao Ministro da Economia. A saber:

a) Passos Coelho fica ferido de morte (politicamente) com este episódio. Porquê? A partir de agora, sempre que ouvirmos Passos Coelho com anúncios bombásticos, com anúncios optimistas, já sabemos antecipadamente que é mentira. Que a motivação de Passos Coelho não é contar a verdade aos portugueses, não é criar esperança fundada - é apenas criar um soundbyte mediático! Com a agravante de este episódio surgir na sequência dos casos que envolvem Miguel Relvas (não só a licenciatura, não se esqueçam da ligação aos espiões e à Ongoing!) e da falta de uma atitude corajosa do Primeiro-ministro, o qual teve medo de tocar em Miguel Relvas! Onde fica a credibilidade de Passos Coelho no meio disto tudo? Fica completamente perdida: temos um Primeiro-ministro que, objectivamente, ficou sem uma réstia de credibilidade! Poder-se-ia dizer que tudo isto não passou de uma combinação entre o Primeiro-ministro e o Ministro da Economia: Passos Coelho anunciava o fim da recessão no próximo ano, em clima de festa; depois, Santos Pereira (sôr Álvaro) aparecia para afirmar que é preciso ter calma, não dar o fim da recessão pela alma. Mas se assim for (e não acredito que assim seja), ainda é mais grave: significa que o Governo sacrificou o interesse nacional, o interesse da nossa Pátria, pelo interesse partidário. Em que termos? É que - os leitores estarão recordados - a política portuguesa tem sido dominada pelos mercados. Não se pode remodelar o Governo porque os mercados (coitadinhos) reagem mal. Não se pode criticar Miguel Relvas porque os mercados atacam Portugal. A oposição cala-se porque não pode mostrar desentendimento com o Governo aos mercados, senão estes irritam-se e o rating da República desce aos infernos, blá, blá, blá....Ora, haverá algo pior para a reputação internacional do Estado português do que o Primeiro-ministro ser publicamente desmentido pelo Ministro da Economia, dois dias depois? Brincamos? É que esta não é uma divergência qualquer: é um ministro de uma pasta fundamental que chama indirectamente irresponsável ao Chefe do Governo! Esta é uma divergência hardcore - não é softcore, é muito hardcore! Os mercados internacionais - agora sim - poderiam encarar o governo português com pânico: então, não há o mínimo de coordenação política? Cada um fala por si? Isto leva-nos à segunda consequência política.

b) Passos Coelho não tem pulso no seu Governo. Passos Coelho não é ouvido, não é seguido e tenho dúvidas que ainda seja respeitado. Será que ainda poderá remediar a situação? Poderá atenuar, demitindo Álvaro do Governo. Se Passos Coelho mantiver Álvaro Santos Pereira, é o seu fim e o fim do seu Governo. Porque o executivo entrará numa fase crescente de descalabro: cada ministro terá a sua agenda própria. Cada um falará por si. Está na hora de Passos - finalmente! - mostrar um bocadinho de liderança no Governo. Se não o fizer, a sua autoridade estará irremediavelmente perdida;

c) Por último, podemos equacionar o seguinte cenário: por que razão o Ministro da Economia - que é um Ministro apagado - teve o topete de desmentir Passos Coelho publicamente? Porventura, ele sabe mais do que aquilo que nós sabemos, nomeadamente, já conhecerá por esta altura que sairá do Governo, mais tarde ou mais cedo. Como não tem nada a perder, o Ministro portou-se ontem, na SIC NOTÍCIAS, mais como um comentador do que como membro do Governo. Estou certo que Álvaro Santos Pereira sabe que não poderá continuar no executivo liderado por Passos Coelho. Veremos...

3. Em suma, esta foi uma semana negra para o Governo: um discurso desastroso de Passos Coelho, um ministro a desautorizar o Primeiro-ministro e o caso dos submarinos que - iremos seguir com atenção! - poderá fragilizar Paulo Portas e, consequentemente, o Governo.

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