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O toca e foge de Passos Coelho no bailinho da Madeira (análise entrevista)

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1.A entrevista televisiva de Passos Coelho de ontem foi a melhor intervenção do nosso primeiro-ministro desde há muito. Formalmente, sereno, num tom convicto, explicativo e pouco hesitante. Mostrou um domínio seguro dos vários dossiês do governo, respondendo com clareza às perguntas do entrevistador da RTP. Claro que não é por acaso que Passos Coelho escolheu a RTP - que é sempre um canal mais mansinho, mais simpático para o poder político do que as privadas. Ontem, Vítor Gonçalves não foi excepção: deixou o primeiro-ministro falar tranquilamente. Sem problemas e (pouco) contraditório.

2.isto, em termos substanciais, Passos Coelho esteve bem na abordagem ao caso da ocultação de dívida pelo governo Regional da Madeira, liderado por Alberto João Jardim. Escrevi aqui ontem que Passos Coelho teria de optar entre conquistar o país, condenando a prática do líder madeirense do PSD, que muito prejudica a reputação de Portugal; ou manter a sua disponibilidade para apoiar Alberto João no encerramento da campanha para as regionais, conquistando o partido - mas perdendo (definitivamente?) o país. Se Passos Coelho optasse pela segunda via, seria o seu fim político: a sua credibilidade, junto dos portugueses e das instâncias internacionais, ficaria ferida de morte. Era o início do fim do governo e talvez o primeiro passo para a bancarrota do nosso país. Temos, pois, que qualquer primeiro-ministro com um mínimo de sentido de Estado teria de repudiar sem reservas a prática ilegal de Alberto João Jardim. Passos Coelho limitou-se a fazer o que tinha de ser feito. Mas, numa época em que a chico-espertice é a pedra de toque e o sentido de Estado parece ser algo do passado, esta atitude de Passos coelho merece o nosso aplauso. Além disso, Passos Coelho afirmou a determinação do governo de criar um quadro legal idóneo a evitar que surjam buracos à moda da Madeira de Jardim noutros níveis da administração pública. Mais: o primeiro-ministro e presidente do PSD mostrou-se preocupado em responsabilizar os autores de buracos financeiros escondidos no sector público, como este da autoria de Alberto João Jardim. E quer que essa responsabilidade seja vertida em lei para que não haja confusões e questões jurídico-constitucionais que obstem à vontade do executivo. Até aqui, muito bem. O problema vem depois: todos os comentadores políticos que ouvi e li não detectaram a enorme contradição de Passos Coelho. É que confrontado com o buraco da Madeira, Passos diz que os autores devem ser responsabilizados a todos os níveis, portanto, incluindo o político. E que os eleitores da Madeira e os militantes do PSD/Madeira devem tomar em conta nos seus juízos políticos o escândalo do buraco financeiro. Mas, depois, Passos Coelho, enquanto Presidente do PSD, recusa retirar a confiança política a Aberto João Jardim! Não dois partidos: um PSD da Madeira; um PSD para o resto do país. O PSD de Passos Coelho, se realmente considera que a prática de Alberto João Jardim foi assim tão grave e condenável (e, de facto, foi!), teria consequentemente de não apoiar a sua recandidatura - e é isso que significa retirar-lhe a confiança política. Ponto. O resto é música celestial. Por exemplo, se a mesma situação tivesse ocorrido com um autarca, o PSD retiraria logo a confiança política. Logo! Neste caso, só não o faz, porque se trata de Alberto João Jardim. Conclusão: a coragem que tantos atribuem a Passos Coelho por tomar a decisão de não fazer campanha ao lado de Alberto João, é uma falsa coragem. Ou, quanto muito, uma coragem q.b. Por outro lado, Passos Coelho enganou-se (ou será que nos quis enganar?) ao afirmar que o problema do buraco da Madeira tem que ver apenas com os custos de reputação. Mentira: o problema da Madeira é um problema financeiro. O buraco da Madeira é equivalente à receita que o governo vai arrecadar com o corte de 50% do subsídio de Natal e o aumento do IVA. E ainda não sabemos se não haverá outros buracos por aí. Se Passos Coelho acha mesmo que é financeiramente insignificativo, então por que razão estrangula os portugueses fiscalmente com tais medidas? Apenas pelo lado simbólico? De mostrar trabalho ao FMI? Mas se for, o Dr. Jardim fez-lhe o favor de lhe borrar a pintura toda...

3. Por último, há uma razão política - que tem sido menosprezada - para Passos Coelho não apoiar publicamente Alberto João Jardim. É simples: Paulo Portas atacou forte e feio a gestão financeira da Madeira, somando pontos com essa estratégia. Ora, se Passos Coelho apoiasse Alberto João Jardim deixava que Paulo Portas andasse solta na condenação do buraco financeiro, capitalizando popularidade. O governo, assim, falaria a duas vozes -sendo a voz mais forte a do partido mais pequeno (CDS). A estratégia passista para lidar com o buraco da Madeira, afinal, foi o toca e foge.

HOJE, NO CURTO CIRCUITO DA SIC RADICAL, não perca a versão televisiva do POLITICOESFERA, por volta das 17h20m. O caso da Madeira, a derrota de Merkel e a fragilidade da democracia serão os temas de hoje.

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