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Entrevista de Seguro: entre a saudade de José Sócrates e a irrelevância política!

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João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1. Estou chocado. Assustado. Acabo de assistir à entrevista de António José Seguro à RTP: o político socialista com que me confrontei durante cerca de 40 minutos pareceu-me alguém muito familiar. Comecei a interrogar-me quem seria. Tive a certeza de que o entrevistado não era o António José Seguro, cujo percurso político comecei a acompanhar atentamente a partir de 2004 (ano em que se conquistou a atenção mediática ao assumir a liderança parlamentar da bancada socialista, tendo de confrontar o recém-designado primeiro-ministro Pedro Santana Lopes no debate do Estado da Nação). Não, aquele não era definitivamente o António José Seguro cujo perfil é caracterizado pelo tom cordato, pela explicação clara das suas ideias e propostas, pela genuinidade política e comunicacional. Não, não era. Quem era?

Eis que tudo começou a ficar mais claro. Reparei que o líder socialista gesticulava, unindo os dois dedos, por vezes, apontando o indicador com arrogância, por outras; sempre com um tom ácido para com o entrevistador, mandando-o que o deixasse terminar o seu raciocínio. Isto sempre com um semblante carregado, a roçar a prepotência. Descobri! Lembrei-me! Aquele líder, ali sentado, com Vítor Gonçalves, era o espírito de José Sócrates (com os seus tiques e manias) no corpo de António José Seguro. Agora já percebemos porque razão José Sócrates veio no passado fim de semana a Lisboa, aparecendo em restaurante de luxo a jantar com os seus "socranetes". Veio ensinar António José Seguro a comportar-se durante uma entrevista. O famoso estudante de Ciência Política veio dar um workshop ao seu sucessor como ser agressivo com um jornalista durante toda a entrevista - e passar 45 minutos sem dizer absolutamente nada. Eis o retrato ideal, sucinto, da entrevista: António José Seguro falou muito - mas não disse nada.

2. Em primeiro lugar, em termos de forma, António José Seguro estragou a sua entrevista. Porquê? Porque as interpelações sucessivas ao entrevistador para o deixar concluir o raciocínio, criaram um ruído enorme que prejudicou a transmissão da mensagem. O ruído distorceu, apagou a força (se é que poderia haver alguma) da mensagem de António José Seguro. Além disso, António José Seguro tem revelado um problema sistemático, desde que chegou à liderança do Partido Socialista: Seguro é muito plástico na comunicação. Dá a sensação de que antes da entrevista fica horas à frente do espelho a treinar a colocação da voz, os gestos, o olhar de indignação para com o jornalista - é tudo tão encenado que fica mal. Que afasta o público. Que cria desconfiança nos portugueses - já quando António José Seguro respondeu a Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, na sequência da sua "golpaça" interna, verifiquei o mesmo erro. Até nisso, Seguro está a tentar ser José Sócrates: na sua plasticidade comunicacional.

3. Feitas estas considerações quanto à forma, vamos ao conteúdo. Quanto ao conteúdo, há pouco a dizer: António José Seguro não acrescentou rigorosamente nada - e aquelas ideias que repetiu não explicou devidamente. Uma nulidade absoluta, em resumo. Vamos por partes.

O PS andda desorientado!

3.1. Desde logo, resulta da entrevista que o PS confronta-se com um problema gravíssimo. Gravíssimo para o próprio PS, mas sobretudo gravíssimo para a democracia portuguesa. Tal como o PSD de Passos Coelho, o PS de António José Seguro não tem uma única convicção política. Uma única! Um exemplo: António José Seguro tem andado a falar de uma taxa aplicável às rendas das Parcerias-Público Privadas (PPP). Nos últimos dias, Seguro era só PPP: era a sua grande alternativa ao Governo. Hoje, na entrevista, o jornalista perguntou-lhe o que faria, afinal, de diferente. Ora, António José Seguro nem tocou na taxa sobre as PPP. Teve de ser o jornalista a lançar o tema. Então, o líder da oposição esquece-se de levar para a entrevista a sua grande medida? Pior: o jornalista pergunta-lhe comos eria a taxa e quanto representaria em termos de poupança. Imagine só o que respondeu Seguro - não sabe, mas já tem um grupo de trabalho a estudar a matéria. Resposta só haverá para o debate do Orçamento de Estado na... especialidade. Só para outubro/novembro. Se Passos Coelho mostra uma impreparação tremenda para o exercício do cargo de primeiro-ministro, António José Seguro mostra que é um líder da oposição fraco. Muito fraco. Sem qualquer habilidade, criatividade ou preparação técnica e política para esta responsabilidade.

3.2. Mais fraco ainda foi a parte da entrevista sobre a moção de censura. Ora, a moção de censura é um mecanismo constitucional que permite à Assembleia da República retirar a confiança política ao Governo. Trocando por miúdos, a moção serve para derrubar Governos. Mas para António José Seguro não: a moção de censura é um instrumento de altíssima importância, com efeitos políticos bastante significativos. Claro: derrubar o Governo. Então seria óbvio que o PS quer derrubar o governo. Mas Seguro desmente: não queremos provocar crises políticas. Então é para quê? A moção de censura serve para quê? Para mostrar que o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda estão contra o Governo? Ui, ui! Que novidade! Eu julgo que António José Seguro anda muito confuso. Proponho que vá estudar o que é uma moção de censura. Há, ainda, outra contradição: António José Seguro refere que o seu voto contra o Orçamento do Estado não é apenas motivado pela TSU. Eu gostaria de perceber melhor este ponto: é que Seguro execução orçamental com a proposta de Orçamento de Estado. Eu também não concordo com as orientações do Orçamento do Estado - mas gostaria que o PS apresentasse um orçamento alternativo, em vez de brincadeiras com moções de censura. A democracia agradecia

3.3 Em conclusão, o estado da situação é mau; o estado da oposição é ainda pior. Estes políticos que lideram os partidos, da esquerda à direita, não conseguem transmitir confiança aos portugueses.

Nota da entrevista: 8 valores