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Discurso Natal: Passos Coelho a (tentar) seduzir Marcelo Rebelo de Sousa!

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1.Insignificante. Vazio. Irrelevante, no essencial. Eis os adjectivos que com mais rigor descrevem o discurso de ontem de Pedro Passos Coelho. No fundo, o discurso de Natal do Primeiro-Ministro serviu apenas para cumprir uma formalidade, não abandonar uma tradição enraizada na política portuguesa. Como é usual referir-se na linguagem futebolística, serviu apenas para " cumprir calendário". No entanto, devemos reconhecer que, em termos formais, verificou-se um upgrade, uma melhoria significativa no discurso de Passos Coelho: atrevo-me mesmo a dizer que foi o melhor (ou deverei antes dizer o menos mau?) discurso de Coelho nos últimos tempos. E porquê? Por que razão Passos Coelho, desta feita, acertou finalmente na forma do discurso? Terá sido porque estava particularmente inspirado por estarmos a viver a época natalícia? Será que Passos Coelho está a transformar-se, para melhor, em termos políticos? Depois de muito pensar, todas as minhas ilusões dissiparam-se. A razão da melhoria comunicacional de Passos Coelho é muito mais comezinha: ontem, Passos Coelho limitou-se a ler o teleponto! Ou seja, Passos Coelho só consegue proferir um discurso minimamente sensato quando segue detalhadamente o teleponto - enfim, quando não é genuíno nem espontâneo!

De facto, desta feita, Passos Coelho apresentou um discurso escorreito, claro, fluído - sem floreados discursivos inúteis; sem tecnicismos inacessíveis para o comum dos portugueses. E, desta vez - hélas! - foi razoavelmente dinâmico. Mas a mudança que queremos aqui hoje salientar tem que ver com a forma como Passos Coelho tratou os seus destinatários, ou seja, os portugueses. Nos três discursos anteriores, Passos tratou os portugueses como se fosse o nosso paizinho a dar-nos um sermão devido ao nosso mau comportamento!

A mentira descarda de Passos Coelho 

Parecia que o nosso líder político - goste-se muito, pouco ou nada de Passos Coelho, ele é o nosso Primeiro-Ministro - estava cá, não para resolver os nossos problemas, mas para nos castigar! Isto faz algum sentido? Passos Coelho perdeu muita da sua credibilidade com o seu mau feitio e problemas (vários) de carácter - e pela sua total falta de jeito e competência para liderar. Ontem, Passos Coelho já tratou os portugueses com o mínimo de dignidade e alguma consideração intelectual - pela primeira vez, desde há muito, Passos tratou os portugueses como pessoas e não (perdoem-me a expressão) como "burros". Passos foi mais gentil, mais carinhoso, mais doce com os portugueses. Ora, esta foi a sugestão de Marcelo Rebelo de Sousa no seu comentário do passado domingo. Já aqui expliquei que Passos Coelho tem um ódio profundo a Marcelo Rebelo de Sousa: e basta conhecer os bastidores do PSD para saber que assim é. Passos Coelho considera que o seu principal adversário é Marcelo Rebelo de Sousa. A verdade é que tem sido sintomático que Passos Coelho siga os conselhos ou responda implicitamente às críticas de Marcelo Rebelo de Sousa: o discurso de ontem foi claramente uma resposta às críticas do professor na TVI. Passos Coelho é, muito provavelmente, o político mais obstinado de Portugal (mais até do que José Sócrates): não ouve ninguém...sabemos agora que abre uma excepção quando se trata de Marcelo Rebelo de Sousa (note-se, no entanto, que os contactos pessoais entre os dois são uma raridade ou mesmo inexistentes).

Posto isto, quanto ao conteúdo, o que há a dizer? Praticamente nada de tão insignificante que foi a mensagem de Natal. Não acrescentou nada, excepto um ponto: que as reformas estruturais estão praticamente concluídas. Como é? Praticamente concluídas? Passos Coelho deve ser o único português que vê reformas estruturais concluídas! Na justiça, há um plano ainda muito abstracto para discussão. Na segurança social, não se avançou nada. Na legislação laboral, já se introduziram algumas alterações a reboque da troika, ainda sem resultados práticos. Na economia, área vital para o futuro de Portugal, o Governo tem sido uma nulidade de todo o tamanho! A única medida estrutural que vi Passos Coelho tomar na área económica foi a de calar o Ministro Álvaro Santos Pereira, mesmo quando propôs medidas positivas, como era a da redução do IRC!

Pois bem, para mim é absolutamente chocante como é que um Primeiro-Ministro consegue mentir e ser tão pouco sério com os portugueses como foi Passos Coelho na Mensagem de Natal! Não há nenhuma reforma estrutural concluída - muito longe disso! EU diria que não há praticamente nenhuma iniciada...Enfim...

 

Nota Passos Coelho: apesar de tudo, como foi o menos mau em termos formais desde há muito, merece 10.  

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