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As mentiras pornográficas do Ministro da Saúde!

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1.Eu ainda sou do tempo em que a JSD - e muito bem! - colocava alegremente nas ruas portuguesas um cartaz qualificando o então primeiro-ministro José Sócrates de "Pinócrates", dada a sua compulsão para mentir. Já se viu para onde nos leva a mentira em política: para o mais perigoso e inseguro abismo colectivo. Por conseguinte, os portugueses são - deveriam ser! - hoje especialmente criteriosos no escrutínios do cumprimento da palavra dos agentes políticos. A mentira persistente, deliberada e pornográfica não mais pode ser tolerada: está em causa a nossa subsistência enquanto Nação no presente a nossa estabilidade e felicidade no futuro. Mas o governo que tem o topete diário de exigir aos portugueses sacrifícios atrás de sacrifícios herdou do socratismo a prática da mentira - veja-se o escandaloso caso do Ministro da Saúde, Paulo Macedo, que não teve o mínimo problema em mentir descaradamente na Assembleia da República, perante os (teoricamente) representantes do povo português. A propósito de que matéria? Do encerramento da Maternidade Alfredo da Costa. Não há um único pressuposto ou dado invocado pelo Ministro da Saúde, para justificar o encerramento de uma das mais reputadas maternidades da Europa, que seja verdadeiro. Nenhum bate certo com os números oficiais. Não acredita? Então passemos a examinar os argumentos de Paulo Macedo em pormenor.

1.1. Em primeiro lugar, o Ministro referiu que a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) registou uma quebra significativa no número de partos (mais de metade). Não é verdade: conforme explicou a directora do Serviço de Obstetrícia a MAC registou, pelo contrário, um aumento claro do número de partos. Estes dados estão à disposição do Ministro da Saúde que - pasme-se - já os consultou formalmente. Das três, uma: ou confiou a tarefa a um dos seus assessores que se revelou incompetente no tratamento dos dados; ou o Ministro pura e simplesmente os ignorou, preferindo dar largas à sua criatividade - ou, então, mentiu descaradamente. Esta última é a explicação que parece mais realista, o que é gravíssimo, sobretudo na sequência de uma semana cheia de "lapsos" do governo Passos Coelho/Miguel Relvas.

1.2. Em segundo lugar, o Ministro alegou uma maior racionalidade na organização e gestão dos recursos hospitalares, alertando mais uma vez os deputados para o problema da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Mais especificamente, referiu que o Hospital da Estefânia tinha registado um aumento do número de partos e que este reúne todas as condições para assegurar um tratamento médico adequado e de alta qualidade. Pois, sucede que a Estefânia não registou nenhum aumento (limita-se aos casos em que o recém-nascido apresenta mal-deformações ou doenças) e remeter todos os partos para esta unidade hospitalar é perigoso - é que a Estefânia só presta cuidados médicos às crianças, não estando preparada para acorrer às situações de risco para a mãe. Ora, transferir os partos para o Hospital da Estefânia seria gerar uma situação absurda de a criança ser tratada neste hospital, enquanto a mãe teria de ser transferida para um outro hospital (para o Santa Maria ou para o São José). Isto é um absurdo de todo o tamanho, que só passa pela cabeça de tecnocratas muito iluminados, de facto! Como é que Paulo Macedo é capaz de mentir desta forma? A MAC regista o maior número de nascimentos a nível nacional com uma larga vantagem em relação a qualquer hospital de Lisboa ou do país! A MAC tem o maior centro de Neonatologia do país, com uma tradição de 80 anos de serviço aos portugueses (e aos lisboetas em particular) e dedicação à causa pública, apresentando equipas multidisciplinares com valências singulares. E isso não se passa de um sítio para outro por mera decisão do Ministro, que trata a saúde dos portugueses como se fosse a gestão dos activos do BCP!

1.3. Em terceiro lugar, o Ministro Paulo Macedo mentiu por omissão, isto é, ocultando a informação relevante aos portugueses. A verdadeira razão para transferir os serviços da Alfredo da Costa para outros hospitais tem que ver com a necessidade de rentabilizar os investimentos feitos no Hospital de Loures. Ora, este Hospital resulta de mais uma brilhante parceria público-privada entre o Estado português e o consórcio Consis Loures - constituído pelo grupo Espírito Santo (BES e a holding Espírito Santo Saúde), a Opway e - quem mais? - a Mota-Engil. Como se sabe, o Hospital de Loures foi construído há poucos dias e o investimento - em período de crise e de aperto também para o BES e para a Mota-Engil em virtude da paralisação de obras públicas - é preciso rentabilizar o investimento. Daí que, de repente, sabemos que a MAC será desmantelada e - coincidência das coincidências! - o Hospital de Loures será um dos beneficiados!

1.4. Para concluir por hoje - este caso abrange ainda outros pormenores sórdidos de que falarei no próximo texto -, há que mencionar que, infelizmente, é assim que se decide em Portugal: pensa-se mais nos interesses imediatos, da conjuntura do que no futuro, nos interesses estruturais do país (conforme já tinha mencionado Marcelo Rebelo de Sousa, vide o nosso texto de ontem). Nos interesses de alguns em detrimento do interesse de todos. No interesse de Portugal. Já agora, sabia que António Costa foi impedido e entrar na Maternidade Alfredo da Costa, no dia em que Paulo Macedo a visitou?

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