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A mentira pornográfica de Passos Coelho

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1. Vimos, ontem, aqui no POLITICOESFERA como Passos Coelho arrisca (e muito!) ao apoiar incondicionalmente Miguel Relvas nesta novela das secretas. Mas uma interpretação cuidada e uma análise meticulosa das palavras do Primeiro-Ministro revelam que o caso é ainda mais grave do que se julgava. Passos Coelho, no Parlamento (sede da democracia representativa), teve o topete de afirmar que não despede ministros com base em sms - e que deposita total confiança em Júlio Pereira, "patrão" dos espiões, chegando até a elogiar o seu trabalho na organização do trabalho das secretas. Com tais declarações, Passos Coelho não mentiu ao Parlamento. Pior, muito pior: Passos Coelho brincou com o Parlamento e, consequentemente, brincou com todos os portugueses. Vejamos porquê.

2. Em primeiro lugar, Passos Coelho sabe muito bem que o problema de Miguel Relvas não é receber sms's. Mesmo sendo de um personagem como Jorge Silva Carvalho. O problema de Miguel Relvas é que, não só protegeu, como se serviu de uma conduta deplorável e ilegal de Carvalho para aumentar o seu poder de pressão. Já todos percebemos que Miguel Relvas se sente incomodado ao explicar a sua relação com Jorge Silva Carvalho e foge a explicar a sua ligação informal aos senhores da Ongoing. Perante isto, Passos Coelho só dispunha de duas opções: (i) ou adiava as justificações para momento posterior ao apuramento dos factos (vamos acreditar que sim...) pela ERC; (ii) ou explicava, de forma clara e honesta, o envolvimento de Relvas no caso das secretas. Podia até admitir que Relvas foi cúmplice de Jorge Silva Carvalho, mas isso tinha sido no passado, estava muito arrependido - e o Primeiro-Ministro tem a firme convicção de que tal envolvimento de Relvas não é motivo suficiente para o afastar do Governo. Assim, falava verdade aos portugueses e não gozava connosco. Claro que tal decisão diria muito sobre Passos Coelho...e nós, portugueses, seríamos livres para julgar a sua decisão. Mas não: o Primeiro-Ministro tentou convencer-nos que o problema se resume a uma mensagem telefónica - o que significa, desde logo, que houve uma falta de comunicação no Governo ou uma desatenção gritante de Passos Coelho. É que Miguel Relvas já tinha admitido que se encontrara com Jorge Silva Carvalho: e já pertencia ao domínio público os negócios comuns de Miguel Relvas e Jorge Silva Carvalho, como a Visão desta semana muito bem explica. Logo, a explicação de Passos foi uma não explicação: foi uma tentativa falhada de minimização de danos políticos. O problema não é a mensagem: é o conteúdo da mensagem. E sobre esta, Passos Coelho não se pronunciou. Algo - grave!- está a incomodar o Primeiro-Ministro. E a fragilizá-lo politicamente.

3. Contudo, o mais chocante foi a forma como Passos Coelho defendeu o chefe das Secretas, Júlio Pereira: ao Primeiro-Ministro só faltou pedir desculpas a um dos homens mais incompetentes (e estou a ser benévolo na qualificação) deste país. Com a defesa de Júlio Pereira, Passos Coelho deu um "tiro na cabeça": é que - recorde-se! - Passos Coelho afirmou que as ocorrências nas secretas são censuráveis e deveriam ser objecto de averiguações. Ora, quem é que promoveu a personagem Jorge Silva Carvalho? Júlio Pereira. Quem é que liderou e foi conivente nos últimos anos com estas trapalhadas, os atentados sucessivos contra os direitos fundamentais de cidadãos acima de qualquer suspeita? Júlio Pereira. Quem é que sabia e fechou os olhos à passagem de informações para a Ongoing? Júlio Pereira. Não se pode afirmar que a conduta de Jorge Silva Carvalho é censurável e, ao mesmo tempo, defender Júlio Pereira: este último é o principal culpado de todas estas trapalhadas. A circunstância atenuante de Júlio Pereira passa por saber que o Chefe das Secretas é estruturalmente um homem fraco - logo, vulnerável a pressões empresariais e políticas. Não é a pessoa indicada para chefiar as Secretas. O problema é que para PS e PSD (principalmente, mas não só) convém ter alguém fraco na chefia dos serviços de informação.

Email:politicoesfera@gmail.com