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Porque é que o IV Reich de Merkel diz não aos eurobonds?

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Paulo Gaião

Angela Merkel diz que só por cima do seu cadáver haverá eurobonds e união de dívidas na Europa. Como um risco profundo marcado a vermelho na fronteira alemã. É o IV Reich de Merkel. Os eurobonds até parecem uma nova linha Siegfried, fortaleza económica e não de guerra. Que razões estão por detrás desta intransigência? O SPD no governo faria diferente? Talvez não fizesse.   

O sociólogo Michel Foucault nas lições que deu em Paris em 1979, publicadas no livro Nascimento da Biopolítica (edições 70) e hoje  muito atuais escreve o seguinte: Depois de Hitler, "a história tinha dito não ao Estado alemão. Mas é agora a economia que lhe vai permitir afirmar-se. O crescimento económico contínuo vai render uma história desfalecida.

A ruptura da história vai então poder ser vivida e aceite como ruptura de memória, na medida em que se vai instaurar na Alemanha uma nova dimensão da temporalidade que já não será a da história, mas sim a do crescimento económico.

Inversão do eixo do tempo, permissão do esquecimento, crescimento económico: penso que tudo isto é a essência de como funciona o sistema económico-político alemão. A liberdade económica co-produzida pelo crescimento do bem-estar, do estado e do esquecimento da história."

Foucault conclui: "na Alemanha contemporânea, a economia, o desenvolvimento económico, o crescimento económico produzem soberania, produzem a soberania política pela instituição e pelo jogo institucional que faz precisamente funcionar essa economia.

A economia produz legitimidade para o estado, que é o seu garante. Por outras palavras, a economia é criadora de direito público".

Curiosamente, tal como lembra Foucault, a perda de soberania alemã é hoje um dos mais fortes argumentos para Merkel rejeitar os eurobonds.  

O crescimento económico alemão é, assim, a base em que assenta há décadas o novo conceito de soberania alemã. Os alemães também se terão convencido que é ele o antidoto que os ajudou  a viver com a memória do que foi o nazismo e ao mesmo tempo evitou até hoje  o nascimento de novos demónios. Por exemplo, através da subida eleitoral significativa da extrema-direita alemã.        

A questão é saber se o IV Reich de Merkel e de todo o pós-guerra alemão não terá de ruir inevitavelmente por causa do problema gigantesco da dívida europeia. Quer Merkel queira, quer Merkel não queira. Afinal, a Linha Siegfried, que se julgava inexpugnável, também ruiu.

Depois deverá chegar um novo mundo ao Velho Continente. Para os mais optimistas, ficar com um pouco do rigor e disciplina alemã pode ser uma grande vantagem. Para além de ajudar a fazer algumas reformas estruturais que nem a troika consegue fazer.

Para os mais pessimistas, pode ser o início do V Reich, pacífico (até ver) mas hegemónico. Não há almoços grátis. Após abdicar da sua soberania de décadas, assente no êxito económico, cedendo à "união de dívidas" europeia ou da "união de partes da dívida" , que é mais realista, a Alemanha vai querer substituir esta perda com um novo conceito estratégico de soberania. Obtido à custa da cedência de soberania dos outros paises europeus, sobretudo periféricos. É o regresso da Alemanha à política... expansionista.