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Expresso

É preciso topete

O Cunhal de que o PCP nunca fala

Paulo Gaião

O PCP está a comemorar o centenário de Álvaro Cunhal em 2013. O panegírico fica para os comunistas. Aqui convém recordar o que não vem nas biografias oficiais do Partido sobre o seu líder histórico.

Em primeiro lugar, o apoio de Cunhal ao pacto de não agressão germano-soviético de  1939. Cunhal escreveu vários artigos no jornal "O Diabo" em que elogia o pacto dentro da lógica leninista de que a guerra no seio dos imperialismos ocidentais podia ser benéfica para a internacional comunista.

Num artigo de 9 de Março de 1940, "Nem Maginot, nem Siegfried" chega a escrever, como refere José Pacheco Pereira na sua biografia política de Cunhal:  "Mas haverá alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain".

Ora, em 1940, como é sabido, Hitler já havia escrito o Mein Kampf há 15 anos, onde defendera a perseguição aos judeus, livro que Cunhal certamente conheceria... Em 1940 tinham passado sete anos sobre a Queima dos Livros e dois anos sobre a Noite dos Cristais de 9 de Novembro de 1938, em que foram mortos centenas de judeus e milhares presos.   

Como é que em nome da revolução comunista mundial e de uma cegueira soviética Cunhal consegue equiparar Hitler a Chamberlain e Daladier?      

Em segundo lugar, o combate pró-Estaline que Cunhal fez contra o relatório Kruschev do XX Congresso do PCUS de 1956 que denúncia os crimes de um líder que matou tanto como Hitler.

Na prisão de Peniche, com Júlio Fogacha a comandar o partido, Cunhal assistiu com frieza ao degelo soviético e ao apoio do PCP a esta linha. Como  escreve o politólogo Carlos Caspar: Cunhal "nunca tomou para si a crítica do estalinismo, que punha também em causa os pequenos Estaline".

Depois da fuga da prisão, Cunhal vai mais longe. Toma conta do partido e acusa Júlio Fogaça e a anterior direcção ( no relatório "O desvio da direita nos anos 1956-1959") de adoptarem "mecanicamente" as teses de Kruschev.

Após o 25 de Abril, Cunhal continuou obcecado com a revolução russa,  sonhando repetir a experiência de Lenine. Deixou que as eleições para a Assembleia Constituinte se realizassem em 1975, pensava que o PCP as ganhasse mas ficou em terceiro lugar (com apenas 12%, a seguir ao PS e PSD).

Derrotado nas urnas, tentou impedir que a democracia parlamentar e burguesa se instalasse (com as eleições de 1976 para a Assembleia da República) e avançou para o golpe de 25 de Novembro, que, a ter tido sucesso, criaria uma república comunista integrada por Lisboa, Setúbal, Évora e Beja, com território contínuo, um Portugal do Sul, dividido do norte democrata.  

Hoje, lembrar o sovietismo de Cunhal é ainda mais pertinente em virtude das teses aprovadas no último Congresso do PCP, há dois meses, em que o partido regressou ao elogio aberto do modelo da URSS. Cunhal está bem vivo e ainda lidera o partido através dos percursores fiéis das suas ideias.    

No campo dos costumes, há também que recordar aquilo em que o PCP nunca tocará. Referimo-nos à  a famosa frase de Álvaro Cunhal sobre a questão da homossexualidade numa entrevista a Carlos Cruz na década de 1980: "é uma coisa muito triste".  

É certo que Cunhal era um homem de outra geração, nascido no princípio do século, numa sociedade fechada e conservadora. No entanto, como líder político, de uma vanguarda de esquerda, tinha a obrigação nos anos 1980 de ter ultrapassado o preconceito em relação à homossexualidade.  

Esta opinião de Cunhal tem, aliás, forte relevo político. Estão por estudar a fundo as circunstâncias da expulsão de Júlio Fogaça, que era homossexual, do PCP , onde se podem ter misturado questões políticas com questões homofóbicas. Também está por perceber a razão de o PCP lidar ainda hoje com visível incómodo com o tema da homossexualidade, ao invés do que acontece com o Bloco de Esquerda.