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Expresso

É preciso topete

Christine Lagarde, a nova xerifa de Nottingham

Paulo Gaião

Os gregos andam há meses como Neros enquanto Atenas (e a Europa) ardem. Não cantam mas vão brincando às eleições para que tudo fique na mesma. E ainda levam palmadinhas nas costas da Europa pela irresponsabilidade.  De repente, Christine Lagarde, directora do FMI, muda de registo e dá-lhe safanões com uma questão que, nos registos de história, aparece normalmente como puro dinamite: impostos. Sobretudo, se os povos já estão pelos cabelos com os seus cobradores. É um trunfo de bandeja oferecido aos gregos, que ficam com mais ânimo para incendiarem Atenas com mais força...

Dizer que os gregos não estão habituados a pagar impostos, é um problema do passado. E tanto dos gregos, como da União Europeia que os deixou viver assim. Lembrá-lo num momento em os gregos são esmifrados com todo o tipo de cobranças pesadas do Estado, como também acontece aos portugueses -- a via mais fácil dos governos para fazerem dinheiro de repente e fugirem mais uma vez às reformas estruturais -- é como lançar gasolina para a fogueira. O que é impressionante é políticos como Lagarde chegarem ao topo das instituições e darem argoladas destas. Não é falta de sensibilidade, é esquecimento da História.

Está provado que um povo já oprimido de impostos só precisa de mais uma taxa ou mais uma injustiça para encher o saco. Foi assim em Inglaterra por causa da avidez do príncipe João, que deu origem à lenda do xerife de Nottingham, foi assim na Revolução Americana por causa das taxas inglesas  sobre o chá e o açucar, foi assim na Revolução Francesa, em que o povo com fome ainda era  sobrecarregado de impostos.  A 17 de Junho, o Syriza deve agradecer à directora do FMI o contributo para a sua Revolução Vitoriosa. E pode não ser a vacina europeia do conceito de Kissinger no tempo do PREC com Portugal mas a primeira peça de um dominó que alastra pela Europa. Quem sabe se o nosso Bloco de Esquerda não será o segundo a desbravar o caminho...               

Lagarde meteu-se também por caminhos perigosos quando fez a comparação entre os gregos e as crianças do Níger que têm fome. "Penso mais nas crianças de uma escola numa pequena povoação no Níger, que têm duas horas de aulas por dia e dividem uma cadeira entre três porque acho que precisam mais de ajuda do que as pessoas em Atenas". Três dias antes de Lagarde fazer estas declarações numa entrevista ao The Guardian, Antonis, um músico grego de 60 anos que vivia em Atenas escrevia na internet: "Vendi tudo o que pude, já fiquei sem dinheiro e já não tenho para comer. Nenhuma saída ocorre à minha mente". No dia seguinte, subiu com a mãe de 90 anos com Alzheimer ao telhado da casa e atiraram-se de mãos dadas para a morte.