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Expresso

É preciso topete

A troika queria o Benfica campeão

Paulo Gaião

O título nacional do Benfica era bom para o PIB, tal como disse o presidente da EDP, António Mexia?  

Parece óbvio que sim. 

O Benfica continua a ser, inegavelmente, e de longe, o maior clube português, a uma escala que envolve todo o país, de norte a sul.  

Como disse Angela Merkel quando esteve em Lisboa há seis meses, 50% da economia é psicologia.  

É provável que muitos portugueses, adeptos encarnados, galvanizados com a vitória, abrissem ligeiramente os cordões à bolsa, consumissem mais e contribuíssem para  a reanimação da economia nacional. 

É garantido que muitas empresas, sediadas em Lisboa, aproveitariam este clima para novas promoções e que investiriam em novas parcerias com o Benfica.    

Ao invés, o título do Porto terá, certamente, efeitos inexpressivos no aumento do PIB. 

O FC Porto continua a ser um clube de natureza regionalista, com bolsas frágeis e dispersas pelo país. 

Nem no próprio reduto do Porto, o clube consegue ter uma influência dominante. O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, foi eleito há 12 anos perante a animosidade do FC Porto.  

E já lá vão mais de vinte e cinco anos após o FC Porto ter ganho a sua primeira Taça dos Campeões europeus, o título que pode dar projecção nacional decisiva a uma equipa, como aconteceu com o Benfica após ter ganho por duas vezes este troféu nos anos 1960.  

A que se deve esta incapacidade?  É culpa do FC Porto?  

É verdade que os dirigentes do clube são fechados e pouco cosmopolitas e que justificam há muito o seu emblema na luta contra um inimigo sulista, mouro e lampião, o que só acentua as suas fraquezas e cava mais fundo a prisão regionalista.       

Mas o Benfica de Luís Filipe Vieira não tem também caído nesta armadilha? Demonizando os tripeiros, apostando tudo em manobras de diversão envolvendo a arbitragem, transmitindo este espírito de procurar atribuir o insucesso a causas externas e não internas ao treinador e jogadores, o que diminuí a sua responsabilidade e rendimento?   

Esta incapacidade do FC Porto para aumentar o PIB nacional tem causas profundas que, na essência, extravasam o clube.      

É reflexo da atrofia centralista do país, de longa data, desde os tempos em que a reconquista aos muçulmanos estava a sul,  de reis e mais reis de costas voltadas para o Porto, de um poder total lisboeta a que o Porto nunca bateu o pé.        

Foi esta atrofia que cavou o provincianismo secular do Porto, que podia ser a alavanca de um norte pujante, com centros de influência diversificados.

Até o poder económico da burguesia portuense do século XIX se fechou em si próprio. O norte, vendo o Porto assim acabou por tentar seguir o seu caminho e negociar com Lisboa directamente, o que aumentou ainda mais a centralidade da capital.   

Há dois padrões hoje no Porto e nenhum desafia a capital, em defesa da ascensão da cidade.    

Ou se demoniza Lisboa e se fica sitiado no Porto, como acontece com o FC Porto.  

Ou se vem para Lisboa, para ir a despacho ao Terreiro do Paço, às sedes das  grandes empresas, muitas delas deslocalizadas do Porto,  às suas televisões ou aos seus jornais de difusão nacional, enfim, aos exclusivos centros de influência da capital (exactamente da mesma maneira que faziam algumas personagens queirosianas há mais de cem anos).  

Que centros de poder tem hoje o Porto que dêem centralidade à cidade?

Talvez só a Ryanair, que faz com que muitos portugueses se desloquem ao Porto para viajarem para várias cidades europeias a que não podem chegar directamente de avião a partir de Lisboa.    

Não há ministérios portuenses porque está tudo concentrado em Lisboa, Não há um banco pujante claramente do Porto e do norte, um canal de televisão portuense com dimensão nacional, um jornal do Porto com influência nacional.    

Há centros de poder paroquiais, o próprio FC Porto, o Canal Porto, o Jornal de Notícias que ontem fez manchete com o título limpinho, limpinho, para ser lido da Ribeira a Paranhos e líderes regionalistas que também só têm dois caminhos.  

Ou ficam reféns do Porto, como aconteceu com Pinto da Costa (o Alberto João Jardim do futebol) ou vêm tratar das suas vidas para Lisboa, quase sempre dar-se mal porque a capital despreza quem não tem poder, como aconteceu com Fernando Gomes, Luís Filipe Menezes e certamente acontecerá com Rui Rio.        

É por isso que António Mexia disse tranquilamente que a vitória do Benfica era boa para o PIB Nacional. Sabe que não há o risco de milhares de portuenses romperem os seus contratos com a EDP e rumarem a outras empresas...    

Pinto da Costa respondeu, irónico mas bem comportado, que espera não prejudicar o PIB Nacional.... Até o presidente do FC Porto sabe que uma coisa é o Benfica e outra o poder de Lisboa.