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O poema ensina a cair

"Já vi neve cair sobre o pavilhão da utopia"

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Lê menos do que pensa e já viu neve cair sobre o pavilhão da utopia. Margarida Ferra, 37 anos, vai buscar ao quotidiano as palavras e as imagens de que precisa para escrever. Foi na zona do Intendente que aceitou ler um poema para a rubrica O Poema Ensina a Cair. Todas as sextas-feiras, no Expresso Diário.



Escreveu o primeiro poema "com a consciência de que ia escrever um poema" quando ainda vivia com os pais "e foi escrito à mão". Era adolescente, integrava o pequeno grupo dos melhores alunos da turma, "eu era a pior dos melhores", e mostrou-­o aos colegas. Os comentários não foram muito animadores, "acho que ainda tenho o poema com as anotações deles", e a poesia de Margarida Ferra pousou ali. A prosa não. "Escrevia longas cartas de cinco páginas às pessoas de quem gostava" e, talvez por isso e também por causa dos textos da disciplina de português do 10º e 11º ano, soubesse que acabaria por escrever, "mesmo que fosse para consumo privado". Protelou a escolha da área do secundário, "tinha 5 a matemática e 5 a português", e acabou por decidir­-se pela área D porque "o número de possibilidades do que gostava era mais alargado aí".

Poderia ter seguido sociologia, como a mãe, ou psicologia, mas acabou por entrar em Ciências da Comunicação na Universidade Nova. Ainda na faculdade, estagiou no JL, e também numa revista sobre juventude: "a vida de esplanada era muito diletante, achei que devia impor­-me alguns constrangimentos". Nos anos da faculdade encontrou tempo para ler os poetas surrealistas com o grupo de amigos de São Domingos de Benfica, mas o primeiro encontro com a poesia foi mais cedo. Além da escola, "gostei de tudo o que dei, desde as Cantigas de Amigo e de Amor, ao Camões", conheceu a poesia completa de Alexandre O`Neill pela mão do pai, e a Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade, pela mão da mãe. Mas nessa altura ainda não achava que ia escrever poemas.  Começou a escrever poesia sem saber que o fazia num blogue chamado Ponto e Vírgula, partilhado com um amigo de infância."Ele era o ponto, era mais humorista, eu era a vírgula, era mais melancólica". Nesse blogue, anotava impressões do quotidiano, o mesmo quotidiano onde vai buscar ainda inspiração para os poemas. "Pode ser só visual, uma coisa que vejo na rua, ou linguagem, alguma coisa que oiço e que fica a ressoar". Não sabe se depois ressoa às pessoas da mesma maneira mas assume que há uma vontade de partilhar e de tornar pública essa experiência,"uma vontade, não uma urgência".

Tem dois livros publicados, Curso Intensivo de Jardinagem e Sorte de Principiante, explica que gostava que a sua poesia "pusesse a linguagem ao serviço das imagens", e que usa a língua "como matéria plástica que tem um lado de imagens, ­aquilo para que o poema remete".

Na poesia de Margarida Ferra encontramos, de facto, quotidianos que podiam ser de qualquer pessoa e que não sabemos se são os seus. Quando lhe perguntamos se encontramos a mulher nos versos da poeta, recusa a ideia de espelho: "é verdade que já vi neve cair sobre o pavilhão da utopia e é verdade que leio menos do que penso, mas não é verdade que já vi aves voar em círculos sobre a minha casa". Também é verdade que tem 37 anos e dois filhos, a Alice e o Pedro, a quem dedica um verso: "Na minha vida sempre tive dois filhos". E explica: "fazem parte de mim ontologicamente. A partir do momento em que és mãe, sempre foste mãe".