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Expresso

O poema ensina a cair

"É preciso reinventar o início"

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Sophia escreve "o meu reino é meu como um vestido que me serve". Miguel Cardoso responde: "Este reino não me serve, não serve, e a poesia vai aproveitando trapos velhos, fazendo remendos". Diz ainda que "tem alergias, usa botas, lava a louça, traduz, dá aulas" e anda com o filho às cavalitas. Aceitou participar na rubrica "O Poema Ensina a Cair", que sai ás sextas, no Expresso Diário. 

Miguel Cardoso (n. 1976) escreve sobre o real e o quotidiano. Tem uma poesia intertextual e há quem diga que torrencial mas o poeta, que não gosta do título de poeta, recusa a ideia de torrente. Diz antes que está "sempre a recomeçar" e que gosta de olhar para os poemas, muitos deles poemas longos, como "muros que são simultaneamente montes de pedras", e explica: "qualquer verso, como qualquer bocado da realidade, pode ser arrancado e levado para outro lado. Eu consigo fazer ligações, colocar ganchos, transportar e mudar e levar para outro sítio". Cita Eugénio de Andrade para explicar que recomeça porque não tem outro ofício e diz que o pára/arranca da sua poesia está inevitavelmente ligado ao quotidiano sobre o qual escreve porque "cada bocado da realidade pode ser arrancado e levado para outro lado", assim como os versos que funcionam como "linhas de desmontagem".

Tem cinco livros de poesia publicados e a crítica já falou dele como um poeta "pós herbertiano coloquial e politizado". Um elogio, de certeza  recebido com agrado, uma vez que Herberto Helder fez parte da sua iniciação à poesia fora do âmbito escolar quando, no 12º ano, passou longas horas na biblioteca de Oeiras a ler Herberto Helder e Arthur Rimbaut: "Li o Herberto todo mas na altura achava que, a escrever, queria escrever como o Rimbaut". Imaginava-se mais como prosador porque, apesar de ter tido algum contacto com a poesia, não pensava em verso como hoje acontece: "a minha respiração tem o ritmo de um verso. Aliás, quando estou a ler prosa estou muitas vezes a fazer as cesuras". Na sua poesia, explica, os versos e as estrofes estão "cosidos de uma maneira em que as costuras estão à vista".

Estudou Línguas e Literaturas Modernas da Variante de Português e Inglês e terminou a licenciatura com média de 17 valores, mas antes deste curso experimentou Direito. Fez um semestre e desistiu "por causa da fobia à papelada", ao lado burocrático do curso. Gostava do lado argumentativo, mas só desse. Conta que esta resistência à papelada ainda se aplica hoje. "Estou muito tempo sem ir ao correio e quando vou meto as cartas numa gaveta". Por causa disso, por vezes, falha prazos: "eu acho que na minha vida nunca entreguei o IRS a tempo". E nas gavetas de Miguel Cardoso, além do correio, há também poemas à espera. 

Em criança passou muito tempo no sótão de casa dos pais com os amigos e  cassetes VHS de filmes de terror e de comédia. No início da idade adulta, faltava às aulas da faculdade para ver "três filmes por dia" na Cinemateca. Depois do mestrado dedicou-se ao doutoramento, que ainda continua, às aulas que dá na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, e ao filho de 4 anos, a quem diz na hora de dormir que "as leis da física não se aplicam durante o sono e que, portanto, tudo pode acontecer", como com os poemas ou o quotidiano.

Não gosta do título de poeta: "não lido bem com o salto qualitativo da pessoa a partir do momento em que é chamado de poeta". Diz que não vive "na poesia" mas que a visita de vez em quando. Essas visitas fazem-se à poesia contemporânea mas também, muitas vezes, a Herberto Helder, Fernando Assis Pacheco, Daniel Faria ou Sophia de Mellho Breyner Andresen. É um diálogo com Sophia um dos próximos livros. Antes desse, acaba de publicar um outro chamado "À barbárie seguem-se os estendais" porque, como explica, "vai olhando por cima dos estendais, para lá da poesia, para espreitar a barbárie".