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O Lado A do Lado B

Um voto de Confiança em Cuba

Obama fez uma aposta: apostou na capacidade de fazer passar no Congresso as medidas práticas que efectivam o levantamento do embargo, apostou na popularidade dessa medida junto da comunidade cubana, particularmente na Flórida e, sobretudo, apostou no aprofundamento do respeito pelos direitos humanos em Cuba. E - está visto - mais do que pelo levantamento do bloqueio, será pelos passos que entretanto forem dados nesse sentido que será julgado nas próximas eleições.

1. Fui a Cuba, por pouco tempo, ainda Fidel Castro liderava os destinos daquele país. Muito jovem, tinha lido sobre a revolução cubana nos livros, o comunismo era para mim uma realidade longínqua e a ausência de liberdades fundamentais recordava-as, fundamentalmente, dos relatos sobre o Estado Novo. Por isso só quando, tendo convidado a guia que nos acompanhou nas visitas a jantar num restaurante lhe percebi o desconforto e, antes disso, a sua recusa mais ou menos velada em responder a algumas das nossas questões, percebi que muito do que lera estava ali, diante de mim, naquela mulher. Naquela e numa outra que me abordou apenas para pedir sabonetes "sim, desses que vocês têm nos hotéis", esclareceu perante a minha surpresa. Foi assim que vi pela primeira vez uma libreta de racionamento que - disse-me, então,- lhe atribuía o direito a um sabão em meses alternados.

Fui a uma célebre gelataria onde - diz-se - se vendem os melhores gelados de Havana. Pelo tamanho da fila não tive dificuldade em identificá-la. Lá caminhei até ao final, disposta a uma meia hora de espera, mas não pude deixar de notar que me olhavam como a intrusa que, afinal, até era. Ao que parecia, havia uma entrada para cubanos e outra para turistas. A minha -explicaram-me com incompreensível entusiasmo - era do outro lado, onde não havia nem fila nem tempo de espera. Estava visto que a reconhecida dependência da economia cubana no turismo levara a que a comunidade se tivesse habituado e desse como boa a ideia de que, no seu próprio país, se deve tratar melhor quem vem de fora do que os nacionais.

2. Vem isto a propósito do recentemente anunciado reatamento das relações diplomáticas entre os Estados-Unidos e Cuba. Confesso que me intrigou a reacção que, do lado de lá do atlântico, este anúncio suscitou em alguns sectores. Não tanto pelas motivações, mas pela veemência, sobretudo numa época em que consabidamente  se esperam dos líderes políticos novas soluções para velhos problemas. O editorial do Washington Post é, a este propósito, claro e cristalino. Logo no título diz-se: "Obama dá ao regime de Castro um imerecido resgate".

Do lado do Partido Republicano multiplicam-se as vozes que acusam Obama de ter cedido a um ditador. O speaker da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, chegou mesmo a emitir um comunicado afirmando que "as relações com o regime de Castro não devem ser revisitadas, e muito menos normalizadas, até que o povo cubano tenha liberdade - e nem um segundo antes disso". De resto, vários republicanos anunciaram já que tudo farão no sentido de bloquear no Congresso os efeitos práticos desta normalização de relações diplomáticas: desde negarem os fundos para a abertura da embaixada americana em Cuba até à própria recusa da confirmação da nomeação do embaixador. Sabendo-se que, já em Janeiro, terão maioria nas duas câmaras do Congresso, este reatamento de relações pode, infelizmente e na prática, vir a saber a pouco. O que, em todo o caso, com o tempo, pode bem virar-se contra os próprios.

Mais surpreendente, porém, é a reacção da comunidade cubana ou descendente cubana. Particularmente na Florida a comunidade cubana é tão significativa que em qualquer local público se fala mais o espanhol que o inglês. E, apesar da curiosa política wet feet, dry feet (que apenas permite aos cubanos que efectivamente toquem solo americano qualificarem-se para um visto de residência), todos os anos à volta de 20.000 cubanos entram nos EUA. Se os descendentes cubanos nascidos em solo americano vêem com bons olhos o levantamento do bloqueio económico e a normalização das relações diplomáticas, o mesmo já não sucede com a primeira geração que se refugiou do regime de Fidel em solo americano e que, genericamente, encaram esta viragem como uma espécie de capitulação. Ora, se a Flórida é normalmente um swing state, decisivo em matéria eleitoral, será lamentável - porém previsível - se viermos a perceber uma exploração, pelos partidos, deste fosso geracional.

3. Creio que ninguém negará o previsível impacto social e económico do levantamento do bloqueio económico a Cuba. E, nesse sentido, volvidos cerca de 50 anos, o reatamento das relações diplomáticas entre os dois países é em si mesmo uma conquista. Mas é mais do que isso. Obama fez uma aposta: apostou na capacidade de fazer passar no Congresso as medidas práticas que efectivam o levantamento do embargo, apostou na popularidade dessa medida junto da comunidade cubana, particularmente na Flórida e, sobretudo, apostou no aprofundamento do respeito pelos direitos humanos em Cuba. E - está visto - mais do que pelo levantamento do bloqueio, será pelos passos que entretanto forem dados nesse sentido que será julgado nas próximas eleições.

O reconhecimento por Raúl Castro de que existem diferenças sensíveis entre os EUA e Cuba no que diz respeito justamente a direitos humanos não será, a este propósito, irrelevante. Por isso, contrariamente a alguns sectores da sociedade americana, não vejo nesta política de Obama uma capitulação ou um recuo. Ao contrário, foi arrojado e corajoso ao mexer numa matéria polémica e estabilizada há cerca de meio século. Acredito que deu um primeiro passo num caminho longo mas imprescindível no sentido do respeito pelos direitos humanos, pelo direito internacional e - assim suceda - da construção de uma sociedade democrática em Cuba. E isso, claro está, implicará também o aprofundamento das relações entre os dois países e, valha a verdade, o envolvimento da comunidade internacional. Obama tem razão quando remete para uma nova forma de fazer política ou para a ideia de que importa encontrar novas soluções para velhos problemas: "Nem o povo americano nem o povo cubano foram bem servidos por uma política rígida, que tem origem em acontecimentos que ocorreram antes da maioria de nós nascer". De resto, a forma como o Papa Francisco se envolveu e, em certo sentido, mediou as negociações, já diz muito não só sobre o próprio (que não cessa nunca de nos surpreender), mas sobre a forma como se hão de gizar estas novas soluções.