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Madeira: lapsos e contradições

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Depois de, na campanha, conferir foros de "primeira página" às eleições regionais, conhecidos os resultados, Costa não lhes atribuiu agora mais do que a relevância de uma nota de rodapé. 

1. A forma como a Comissão Nacional de Eleições lidou com os lapsos no apuramento dos resultados eleitorais nas eleições da Madeira não pode deixar de nos interpelar. Não pode ser visto com tranquilidade que, num espaço de horas, um partido ganhe, perca e ganhe novamente maioria absoluta no Parlamento Regional. O caso foi, quer se queira, quer não, caricato. É certo que, não fosse o impacto objetivo do erro no apuramento, não estaríamos hoje a discutir esta questão, nem teria o mesmo ocupado os títulos de vários jornais. Mas é justamente essa a importância do rigor no apuramento do resultado eleitoral, determinante quer altere o quadro de distribuição de forças entre partidos, quer não. Dizer, como disse a CNE, que se tratou de um "pequeno, mas significativo, lapso da aplicação informática" que "face às especiais consequências que teve gerou alarme e incompreensões na opinião pública", não parece ter sido a melhor forma de justificar a não inclusão dos resultados da ilha de Porto Santo.

Não está em causa - importa sublinhá-lo - a confiança no apuramento final e no trabalho da CNE, não obstante a natural legitimidade de todos os partidos para interporem recurso para o Tribunal Constitucional. Do que se trata é da ligeireza com que a entidade a quem cabe garantir a regularidade do apuramento eleitoral e elaborar o mapa dos resultados oficiais das eleições encarou um momento muito pouco prestigiante para o nosso sistema eleitoral.

 

2. Entretanto, a confusão no apuramento eleitoral não escondeu o embaraço do Partido Socialista, em particular de António Costa, relativamente ao parco resultado do PS Madeira. Não escondeu nem o embaraço, nem a contradição.

É verdade que, como diz António Costa, "as eleições regionais são eleições regionais" e que são "eleições distintas" sem dimensão nacional. Ao contrário de muitos, concordo com esta visão. Porque a história da democracia portuguesa tem justamente mostrado isso. Sucede que, desta feita, Alberto João Jardim saiu da equação e isso, ou também isso, terá entusiasmado o Secretário-Geral do Partido Socialista a fazer na campanha uma extrapolação que agora, apurados os resultados, já não lhe interessa fazer. É que - recorde-se - foi o próprio António Costa quem, antes de todos os demais, entendeu atribuir às eleições na Madeira uma dimensão  nacional quando, na sua incursão ao território, pediu que "a mudança no País se iniciasse nas eleições regionais" e que constituísse "o primeiro travão ao falhanço da política de Passos Coelho". Agora - diz - são eleições sem impacto nem relação com o contexto nacional. Costa foi incongruente com as suas próprias declarações.

Em boa verdade, não só nas suas declarações mas na relevância que lhes conferiu, comentando o resultado eleitoral à margem de um debate no Clube dos Pensadores. Depois de, na campanha, conferir foros de "primeira página" ás eleições regionais, conhecidos os resultados, não lhes atribuiu agora mais do que a relevância de uma nota de rodapé.  

As eleições regionais vêm, pois, confirmar a relação paradoxal de Costa com os resultados eleitorais. Aquando das eleições europeias viu na vitória do PS uma derrota. Ao que parece, vê agora na derrota uma vitória. Perspectivas...