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Expresso

O Lado A do Lado B

A Dança das Esquerdas

O apelo de António Costa à esquerda não se forja, pois, num encontro de afinidades. O convite à extrema-esquerda fica-se pela mais pura estratégia conjuntural. Alguém acredita que um partido que não consegue chegar a acordo com o Governo PSD/CDS sobre o IRS, sobre a Fiscalidade Verde, um partido que nem sequer se senta à mesa para debater a reforma do Estado e - pior - um partido que renegou, desde a primeira hora, o memorando que negociou e assinou, vai consensualizar matérias desta natureza com o BE, o PCP ou o Livre?!

1. O "caso" José Sócrates esteve, ao que parece, ausente do Congresso do Partido Socialista. Compreende-se o pedido de António Costa e compreende-se que permaneça no reduto da justiça o que é da justiça. Mas não há como negar que a prisão preventiva do antigo primeiro-ministro teve, pelo menos, uma consequência imediata: já ninguém exige eleições antecipadas nem reclama a todo o transe maiorias absolutas. É essa, creio, a conclusão mais visível deste congresso e, muito possivelmente, a razão e o sentido da suposta "viragem à esquerda" do PS de Costa.

 Sejamos claros: António Costa percebeu a dificuldade e a improbabilidade de obter uma maioria absoluta nas próximas legislativas e julga, ademais, que, para ganhar eleições, terá de demarcar-se do actual governo. O apelo à esquerda não se forja, pois, num encontro de afinidades. O convite à extrema-esquerda fica-se pela mais pura estratégia conjuntural.

Se é verdade - e é verdade - que, como diz António Costa, encontrar um parceiro de coligação não é um problema de nomes "é uma questão de políticas", será que podemos esperar que este "novo PS" se junte aos partidos da extrema-esquerda na defesa da "re-nacionalização" de serviços públicos, na contestação ao tratado orçamental e às políticas orçamentais europeias ou na adopção de um modelo de Estado Proteccionista? Ou, pelo contrário, devemos acreditar que as palavras de Costa - que logo avisou, e cito, " não contarão com o PS para vos ajudar a manterem-se na posição cómoda de ficarem só pelo protesto" - terão o condão de guiar a esquerda portuguesa num sentido mais moderado e europeísta? Mais: alguém acreditará genuinamente que, como ouvimos ao novo Secretário-Geral do PS, são maiores e mais determinantes as diferenças no que diz respeito à "estratégia económica" e a um pretenso "fosso ideológico, cultural e até civilizacional" entre PS e PSD do que entre o primeiro e o PCP ou o BE? Se for assim, há um erro com 40 anos que importa corrigir! É verdade que há um mundo a separar este governo da governação do Eng.º José Sócrates mas, ressalvado esse período, entender que a extrema-esquerda está mais próxima do PS que o PSD ou até o CDS é negar a história do país e da própria europa.

2. A este propósito escreveu de forma clara e corajosa Francisco Assis no Público.

Disse o que tinha de ser dito: "A ideia que nunca me passaria pela cabeça seria a de tentar instrumentalizá-los numa tentativa - destinada ao insucesso ? de captar grande parte do seu eleitorado". É nisto - e apenas nisto - que se esgota a tão proclamada "viragem à esquerda" do PS. Até porque - recordemo-nos - no domínio da orientação política, até agora, pouco parece ter mudado desde o tempo do PS de Seguro.

Diga-se, ainda, que chega a ser caricata esta súbita propensão socialista para o consenso. Alguém acredita que um partido que não consegue chegar a acordo com o Governo PSD/CDS sobre o IRS, sobre a Fiscalidade Verde, um partido que nem sequer se senta à mesa para debater a reforma do Estado e - pior - um partido que renegou, desde a primeira hora, o memorando que negociou e assinou, vai consensualizar matérias desta natureza com o BE, o PCP ou o Livre?!

3. Acredito firmemente que as principais reformas estruturais devem envolver, até pela sua natureza, pelo menos, os três maiores partidos, PSD, PS e CDS. Mas não tenho absoluta certeza se - como advoga Francisco Assis - um entendimento de regime entre PS e PSD (melhor dito, entre "este PS" e o PSD) seria, no actual estado de coisas, o melhor para o país. Tudo dependeria, claro está, do entendimento que, em concreto, os dois partidos lograssem obter. Estou, todavia, certa disto: uma solução de governo que envolva o PS e a extrema-esquerda portuguesa só muito dificilmente irá além do domínio do imaginário de alguns. Até porque, bem se vê, conduziria inevitavelmente à desvirtuação do próprio PS ou ao fim dos pequenos partidos da esquerda tal como os conhecemos. Em todo o caso, como nos mostrou este Congresso do PS, o idealismo da "união das esquerdas" é sempre um momento enternecedor na retórica política.