Siga-nos

Perfil

Expresso

Quem ganhou os debates?

  • 333

1. “Quem ganhou o debate?” é, possivelmente, a questão que, por estes dias, mais tem ocupado comentadores, fora de opinião pública e, naturalmente, as redes sociais. Há respostas para todos os gostos ainda que sigam, normalmente, a tendência ditada pelos juízes que, logo no final, proferem a sentença. Nunca gostei de assistir a um debate político com o mesmo olhar com que assisto a uma partida de ténis. Arrasar o adversário até pode ser o objectivo de todos e de cada um dos oponentes, mas proclamar um vencedor não pode ser a pretensão da opinião pública. Porque assim se estimula mais o ataque às propostas do adversário e menos a defesa das propostas próprias e, essencialmente, porque isso traduz a aceitação de uma política assente na conflitualidade de que, paradoxalmente, tantas vezes nos queixamos. Por isso digo – sem rodeios nem tibiezas - que nem António Costa nem Pedro Passos Coelho saíram vencedores destes debates. Diferentemente: foi a rádio quem ganhou à televisão.

Com efeito, independentemente da prestação de um e de outro, o modelo, mais distendido e coloquial, favoreceu o esclarecimento e a resposta a questões que, bem se vê, não podem responder-se com um “sim” ou com um “não”. Por outro lado, a natureza incisiva das questões permitiu esclarecer aspectos que necessitavam de um maior detalhe e os moderadores foram bem sucedidos na dificílima tarefa de centrar o debate no futuro e nas propostas de cada um. Claro que a rádio beneficiou de dois ingredientes decisivos: por um lado, a organização do debate em segundo lugar permitiu corrigir eventuais falhas no modelo do primeiro e - tão cliché quanto verdade – a ausência de imagem privilegiou o conteúdo. Em qualquer caso, se há um vencedor a declarar, esse vencedor é, indiscutivelmente, a rádio.

2. No dia seguinte a um debate já ninguém fala nele. Em vez disso, comentam-se os comentadores e glosa-se sobre o que se diz do que aconteceu e não, necessariamente, do que efectivamente aconteceu. As opiniões ganham vida própria ao ponto de, passado algum tempo, constituírem em si mesmas o conteúdo do próprio debate. E isso é especialmente nefasto porque quem não viu ou não ouviu acaba, invariavelmente, por assumir como sua opinião alheia. Em matéria de debates os primeiros a opinar são, sistematicamente, os trendsetters. Estão nas TV’s e nas rádios prontinhos para declarar um venceder assim que o duelo seja dado por encerrado. Quem vem depois, de duas, uma: ou já nem vê ou não ousa romper com a tendência.

Foi assim no debate televisivo. Pedro Passos Coelho - perdoem-me a franqueza ou até a eventual parcialidade – esteve bem. Esteve mais sólido, menos prolixo e menos truculento que António Costa embora, essencialmente, mais defensivo. Ainda assim foi eleito “vencedor” um candidato que apresentou constantemente como resposta aos maiores desafios do País algo tão concreto como “uma política de confiança”, ou que quer que isso signifique.

Na rádio Pedro Passos Coelho esteve indiscutivelmente melhor que António Costa. Respondeu à ridícula comparação que Costa sempre faz entre o governo de Lisboa e o governo do País e explorou bem o mote deixado por Graça Franco sobre a proposta do PS de cortar mil milhões de euros nas prestações sociais não contributivas. Já António Costa insistiu em recusar sentar-se à mesa para debater a Segurança Social, o que, evidentemente, diz muito da capacidade de compromisso do PS na oposição como no governo. Para um partido que – com razão ou sem ela - andou quatro anos a reclamar do ostracismo a que pretensamente teria sido votado no desenho daquelas que viriam a ser as principais reformas deste governo não deixa de ser paradoxal. Em todo o caso, também aqui a opinião tomou maiores proporções que o debate em si mesmo, embora com a vitória declarada de Passos. Feitas as contas no final, nos media e nas redes sociais, decretou-se um empate, com a vitória de um no primeiro set e a do outro no segundo. Discordo do resultado, mas de nada vale remar contra a maré.

3. Gosto das análises que vou ouvindo e lendo. Salientam aspectos importantes que porventura passaram despercebidos, sistematizam umas matérias e relacionam outras. Estão contudo – como é natural em qualquer opinião (mesmo nestas que aqui vou dando!) – carregadas de subjectividade. Por isso – num mundo digital em que a informação e a opinião circulam a uma velocidade alucinante e em que muitas vezes se toma uma coisa pela outra – vale a pena voltar, ainda que por pouco tempo, ao essencial. E como esse mundo digital nos permite hoje ver e rever o que noutros tempos ficara lá atrás, fica aqui o desafio: na dúvida, vale a pena ver e ouvir o original.