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Expresso

O Mito dos Independentes

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1. O mito dos independentes paira, há anos, sobre a política portuguesa sem que ninguém ouse desconstruí-lo. Reside na concepção primária à luz da qual quem não tem qualquer filiação partidária nem participação política activa é, necessária e obviamente, um melhor político. É sempre mais credível, mais independente, mais capaz. Já aqueles que são filiados ou fazem parte das estruturas dos partidos, aqueles que começaram a fazer política no seu bairro, na sua freguesia ou na sua cidade têm, por mero efeito do exercício dessas funções, idoneidade e capacidade reduzidas. Eis o mantra da vida política portuguesa nos últimos anos.

A questão está, naturalmente, associada à imagem pública dos agentes políticos. Fazer política nos dias que correm não é curriculum, é cadastro. Um jovem político é, aos olhos de uma vasta maioria dos seus concidadãos, um imberbe sem emprego que cresceu nas jotas. Um adulto, por seu turno, é sempre alguém que, ou se serve dos cargos que ocupa, ou que não teria lugar em mais lado nenhum. Já escrevi neste espaço: enquanto generalizarmos, enquanto apoucarmos indistintamente aqueles que actualmente fazem política, piores políticos vamos ter, porque cada vez menos gente com valor e empenho estará disponível para o exercício dessas funções.

2. Paradoxalmente, quem mais alimenta este mito dos independentes são os próprios partidos. Não há lista que se faça, pessoa que se nomeie ou equipa que se escolha que não sirva para dizer “nós temos independentes”, como se fossem, indiferentemente, pela própria condição de “indivíduos não filiados” um “activo” e uma medalha que se traz ao peito. Como se independência, no sentido da ausência de filiação partidária, fosse sinónimo de competência. Ora, a promoção desta ideia pelos próprios partidos diz muito do valor que atribuem aos seus próprios quadros. E se os partidos não os valorizam não podem pedir aos cidadãos que o façam.

Com efeito, os partidos políticos criaram, sem porventura disso se aperceberem, um duplo campeonato: a primeira liga – dos independentes - e a segunda liga – dos seus próprios quadros. Não compreenderam que o desafio está em garantir a excelência dos segundos neles integrando os melhores dos primeiros. Isto é, na capacidade de atraírem e reterem nas suas estruturas pessoas de valor e mérito, venham elas de onde vierem. De atraírem para a política quem tem a capacidade de se afirmar dentro e fora dela. E, justamente, fazerem destes os “seus” dirigentes e candidatos.

Acresce que esta categoria de “independentes” deve ganhar um significado que vai além da filiação partidária. Os partidos têm que perceber que “independentes” não são apenas os que não participam regularmente na vida política, mas são, sobretudo, aqueles que, simultaneamente, não dependem da política e que, nesse sentido, cuidam de garantir a sua independência na relação com o próprio partido.

Claro que este exercício impõe uma constante renovação que a generalidade dos nossos partidos políticos não tem sabido fazer e um pluralismo de opiniões que terão de estar dispostos a aceitar. E supõe, naturalmente, uma maior aproximação às pessoas, às empresas e às instituições. A este propósito, é justo reconhecer nas primárias do Partido Socialista um contributo útil e importante. Dar voz a quem (ainda) não tem voz dentro do partido é uma boa forma de contribuir para que as estruturas partidárias não se fechem sobre si mesmas. E, simultaneamente, para promover a inserção na vida interna dos partidos daqueles que (ainda) não integram as suas estruturas. Isso mesmo tenho defendido em diversos fora.

Mas ainda é pouco. Há um mito para desconstruir. Dentro e fora dos partidos, como o provaram as notícias que esta semana dão conta da composição da Comissão Política da Coligação e que apenas salientam o conjunto de independentes que a integram. Não se cura de desmerecer a qualidade dos mesmos, pelo contrário. Todos apresentam um percurso de excelência que, justamente, os partidos devem saber aproveitar. Mas na incapacidade de valorizarmos, igualmente, quem faz política activa e activamente e a faz bem. E enquanto não formos capazes de valorizar estes “políticos” – aqueles a quem reconhecemos mérito e empenho - não teremos nunca os políticos que gostaríamos de ter.