Siga-nos

Perfil

Expresso

O Lado A do Lado B

Francisca Almeida

Em defesa de António Costa

  • 333

Esta proposta abre uma brecha ideológica entre o PS e o PSD e o CDS . Com estas propostas os socialistas encostam-se às esquerdas, mas para ficarem sozinhos.

1. Durante meses o país criticou António Costa pela vacuidade da sua pretensa alternativa de Governação. Em boa verdade, desde as primárias do PS que aqui e ali se critica a ausência de compromisso de Costa e a inexistência de propostas para as várias áreas da governação. Eu própria fiz, neste espaço e por diversas vezes, a mesma crítica. Até hoje.

Com efeito, depois da apresentação, esta semana, do Relatório "Uma Década Para Portugal", encomendado pelo Partido Socialista a um grupo de economistas que, de resto, integra alguns dos seus dirigentes, não poderá insistir-se na mesma crítica. É que o documento está bem feito, metodológica e sistematicamente, e apresenta propostas concretas. Apesar de discordar do conteúdo, duvidar do caminho e divergir da alternativa, não posso deixar de reconhecer que ali se lançam boas bases de discussão. E isso é o melhor que se pode ter numa campanha eleitoral.

2. Isto dito, e feita a defesa em jeito de ponto prévio, desçamos aos argumentos.

O que mais aprecio no Relatório "Uma Década Para Portugal" é o facto de se tratar de um documento profundamente ideológico. Bem sei que, de há anos a esta parte, no plano político, o adjectivo tem sido usado num sentido marcadamente pejorativo. É pena. Porque é, ou deve ser, justamente a ideologia a distinguir os partidos políticos. E tem que haver distinções. É salutar que existam!

Ora, esta proposta abre uma brecha ideológica entre o PS e o PSD e o CDS. Com estas propostas os socialistas encostam-se às esquerdas, mas para ficarem sozinhos. Com efeito, se ganharem eleições sem maioria absoluta jamais conseguirão coligar-se à direita e à esquerda não lhes sobra nenhum partido responsável de vocação europeísta que possa com eles formar governo. Não deixa de ser uma estratégia curiosa.

3. Mas voltemos à ideologia. O Partido Socialista traz-nos Keynes, mais investimento público desregrado, mais despesa e endividamento, mais Estado na economia. Essa é a receita que propõe para o crescimento e o emprego. A antítese, portanto, do que vem defendendo o actual Governo.

O PS pretende reequacionar o processo de privatizações e concessão e, paralelamente, sujeitá-las a um parecer vinculativo dos supervisores. Diz ainda que quer conferir poder e independência aos supervisores e reguladores mas, paradoxalmente, sujeita-os a destituição pelo poder político (AR e/ou PR).

O PS propõe-se alterar profundamente o mercado laboral restringindo o contrato de trabalho a termo às situações de substituição de trabalhadores. Privilegia, portanto, quem já trabalhar à custa de quem quer trabalhar! Uma receita - está bom de ver - apostada na dinamização do mercado de trabalho, especialmente para os mais jovens...?!

O PS cria um complemento salarial anual para os salários mais baixos ou para quem trabalha apenas parte do ano. Paralelamente, aumenta o abono de família, o Rendimento Social de Inserção e o Complemento Solidário para Idosos. Compromete-se, ademais, a eliminar a redução salarial dos funcionários públicos em dois anos e, no mesmo prazo, a eliminar, ainda que gradualmente, a sobretaxa do IRS.

4. Em síntese, e forma simplista, o PS acredita nisto: há um círculo virtuoso multiplicador da despesa. O Estado deve intervir na economia pela via da despesa, estimulando o consumo e a procura. Assim se gerará emprego e crescimento.

É uma ideia bonita mas, no mundo globalizado dos nosso dias, na nossa economia pequena e aberta, alguém (ainda) acreditará nisto?

Não diria melhor que Reagan a propósito do projecto socialista para a economia: 'Se ela se movimenta, taxam-na. Se ela continua a movimentar-se, regulam-na. E se ela pára de se movimentar, subsidiam-na."

A (promessa da) festa socialista está de volta. O problema, já se sabe, conta-o o ditado: "acabada a festa, desarmam o trono"...