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Morreu Silva Lopes, o economista gentil, e é preciso dar por isso

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Serão publicados competentes obituários, colecionadas declarações de pesar e prestadas condolências pelas Associações, pelas Ordens e pelos partidos. Mas José Silva Lopes não era um economista vulgar, era o melhor de todos. Morreu o melhor economista vivo.

Estou, na verdade, a citar-me, o que é não é muito bonito. Mas é só para mostrar que não é comoção, é uma opinião antiga e foi partilhada por muita gente, incluindo economistas, sobretudo economistas. Escrevi várias vezes ao longo da minha carreira de jornalista que Silva Lopes era o melhor economista vivo. O exagero estava só no universo: não conhecemos todos os economistas vivos. Dos que conhecemos, era ele.

Não é justo para a sua memória que passe despercebido como passará: entre a emoção nacional com a morte de dois heróis, Herberto Helder e Manoel Oliveira. A Silva Lopes o país deve muito e é preciso dar por isso. Tânato está muito exigente nesta primavera e leva-nos os grandes. Silva Lopes era um dos grandes.

Esteve no Banco de Portugal e no Ministério das Finanças no pós-25 de Abril, quando havia sonhos para tudo e não havia dinheiro para nada. O tempo desde Vasco Gonçalves a Vasco Vieira de Almeida, Salgado Zenha, Mário Soares, Ernâni Lopes, Rui Vilar. Chegou a fugir de uma manifestação de trabalhadores que queriam o seu couro, escapando pelo sótão do Ministério e saltando pelos telhados do Terreiro do Paço, como contou neste trabalho notável de Helena Garrido. Negociou o tratado com a EFTA, negociou com o FMI, negociou com a CEE, teve sempre ação, informação e opinião - e nunca, mas mesmo nunca o ouvi falar sem basear os argumentos em dados. Quando Paul Krugman esteve em Portugal para receber o Honoris Causa, fez sombra mediática ao também laureado Silva Lopes - mas foi o próprio Krugman quem fez questão de elogiá-lo, a ele, ao seu trabalho e à sua importância na política económica e sobretudo financeira naquela altura doida de Portugal, que Krugman, então destacado em Portugal, também conheceu.

Silva Lopes tinha alguns amigos e muitos admiradores entre os jornalistas. Nesta fotografia de 2011, do Miguel Baltazar, o economista está na redação do Negócios em 2011, com a Helena Garrido e comigo.

Silva Lopes tinha alguns amigos e muitos admiradores entre os jornalistas. Nesta fotografia de 2011, do Miguel Baltazar, o economista está na redação do Negócios em 2011, com a Helena Garrido e comigo.

Mesmo recentemente: quando a troika entrou, foi descrente nas reformas estruturais mas defendeu medidas bem impopulares, como a descida dos salários para combater o desemprego ou o corte das pensões mais elevadas. Não era duro, era seco: com os números. Não tinha um pingo de respeito pelo desmando, era contra as PPP, criticou bastas vezes muitos políticos, de José Sócrates a Alberto João Jardim. Acusou a própria troika de andar a aldrabar. O governo de Passos Coelho de fechar os olhos. E detestava esta coisa nacional dos grandes interesses instalados à pequena corrupção: "Leia o Aquilino Ribeiro", disse ele nesta entrevista a Anabela Mota Ribeiro e a Helena Garrido, "os camponeses que levam umas trutas ao chefe de posto da administração local...". Se fosse Deus, disse ele na mesma entrevista, a primeira coisa que fazia era acabar com os paraísos fiscais. "Estamos a ver revoltas, mas não dos que mais sofrem. É dos que podem".

"A verdade é que vejo o futuro com muito pessimismo", dizia ele em 2004 ao Expresso. Não se enganou. Silva Lopes deixa uma descendência de economistas e uma fila de admiradores. Sim, é preciso dar por isso. Dá-se pelo que nos faz falta, não é?