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Hora H

Crónica H

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Estou acordado. Fala-me de ti.

Hoje não há espadas trespassando os cometas da semana, Herberto Helder morreu e eu vou escrever uma crónica. Não é um texto de opinião, não é um editorial, não é sequer uma coluna, são apenas quatro quartos de coluna, é uma crónica, é fogo daqui em diante, a saída de emergência é já aqui. Saia. 

Fique. 

Não peço desculpa pela interrupção: ou escrevo sobre Herberto ou escrevo sobre um doido voador que barrica 149 pessoas do lado de fora de um cockpit e deixa de epitáfio à insânia a sua respiração pavorosamente normal, compasso trágico cravado numa caixa negra (negra, negra) do silêncio impassível impossível de um 'suicidomicida'.

Vê? Um neologismo, coisa de crónica. Crónica não é o entendimento do mundo, é uma visualização pessoal dele. "Ver é a pura loucura do corpo" e a loucura não é falar de Herberto, é falar de nós ao lê-lo, para fugir "às arenas do puro intolerável". Nesta crónica a primeira pessoa é ele, a terceira pessoa sou eu - e eu agora vou tratar-te, Herberto, como se ele fosses tu. Tu, Herberto, para mim não morreste pela mesma razão que para mim não viveste. Li-te sem precisar de te conhecer de parte nenhuma, sem ter curiosidades sobre ti, se eras feliz, se eras pobre, se fumavas Gauloises ou comias peixe frito, se eras como nós, se eras de cá - se eras vivo. 

Herberto fará muita falta à sua família, aos seus amigos, aos que tinham a sua vida na vida dele - e a esses prestamos respeito. A mim, Herberto Helder não fará falta. Para mim, ele não é vida e obra, é obra, obra toda, e a obra está comigo, connosco, envelopada em livros a que falta juntar um, sai daqui a meses. Não sinto pois saudades, mas gratidão, e nem sequer é a ele, é à dádiva. Nós sabemos que Herberto não queria ser falado (as frases oficiais desta semana... credo... país que dá ao poeta morto o que não dá ao poeta vivo...). Como escreveu o outro do século XX, de que se fala sempre que se fala de Herberto (parece estar em debate se eles dividem o século ao meio ou se ficam os dois com o século inteiro): "Assim, como sou, tenham paciência!/ Vão para o diabo sem mim,/ Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!" 

Crónica, dizia. Herberto Helder em nós. Um clamor. Um frémito. Um estremecimento. Um adoecimento. Desejo, ensejo. Palavra. Dedos molhados, pedras ásperas, sal, praias de labaredas. O que somos quando somos amantes? Quando tudo em nós é ela? Sexo. Morte. Solidão - um a falar de outra quando queria ser dois. Servidão. Certeza. Entra-se e a gruta subitamente não é escura. Obscuro, Herberto? "Como brilham violentamente as cicatrizes." 

Este texto é meu e não vim cá hoje para ver nem para ler, vim para estar. E ir. Afinal, isto é uma crónica e é a minha forma de expressar não o amor por ele mas o amor pelo amor que ele nos revelou. Herberto, o que quero eu? É apenas uma crónica, não preciso de vencer. Só quero dizer: Herberto é para ler todo e serve para ler tudo. É para nos vermos a nós depois dele, no nosso mundo depois daquele, que são o mesmo, mas nós diferentes. 

Sim, estou acordado. Fala-me outra vez.

 

P.S. - Esta crónica tem quatro citações. Elas são, por ordem, de Clarice, Sophia, Pessoa e Herberto: os quatro quartos da coluna.

 

Texto originalmente publicado na edição do Expresso de 28 de março de 2015